sexta-feira, 17 abr. 2026

Reorganizar o SNS para garantir proximidade e excelência

Um sistema de saúde moderno precisa de cuidados primários fortes e de hospitais organizados para tratar aquilo que é realmente complexo.

Nos últimos anos tornou-se evidente que o Serviço Nacional de Saúde atravessa um momento de forte pressão organizativa. As dificuldades no acesso aos cuidados, a sobrecarga persistente das urgências e o crescente desgaste sentido por profissionais e cidadãos alimentam um debate cada vez mais intenso sobre o futuro do sistema.

Este debate é legítimo e necessário. O SNS representa uma das maiores conquistas sociais da democracia portuguesa e continua a ser um pilar essencial da coesão do país. Contudo, muitos dos desafios atuais não resultam apenas da escassez de recursos. Resultam sobretudo de problemas de organização e de articulação entre os diferentes níveis de cuidados.

O verdadeiro desafio do SNS não é escolher entre proximidade ou diferenciação, mas garantir simultaneamente cuidados primários fortes e hospitais organizados para tratar aquilo que é realmente complexo.

Um sistema de saúde equilibrado precisa de equipas de proximidade capazes de acompanhar as pessoas ao longo da vida, prevenindo doença e gerindo a cronicidade. Mas precisa igualmente de hospitais preparados para tratar aquilo que exige maior diferenciação clínica, tecnologia avançada e experiência acumulada.

Reorganizar o SNS significa precisamente encontrar esse equilíbrio.

Importa, por isso, evitar leituras excessivamente pessimistas sobre o estado do sistema. O Serviço Nacional de Saúde continua a assentar numa base sólida de profissionais altamente qualificados, numa rede hospitalar tecnicamente diferenciada e numa tradição de serviço público profundamente enraizada na sociedade portuguesa. Mais do que um sistema em colapso, o SNS enfrenta hoje a necessidade de uma reorganização estratégica que permita recentrar cada nível de cuidados na sua missão essencial.

A primeira dimensão dessa reorganização passa inevitavelmente pelo reforço dos Cuidados de Saúde Primários. Nenhum sistema de saúde funciona de forma equilibrada sem equipas de proximidade capazes de acompanhar as pessoas ao longo do tempo, gerir a doença crónica, prevenir descompensações e orientar adequadamente o acesso aos níveis de cuidados mais diferenciados.

Neste contexto, o médico de Medicina Geral e Familiar assume um papel central. Não é apenas o primeiro ponto de contacto com o sistema, mas o verdadeiro garante da continuidade assistencial: o profissional que conhece o doente, o seu contexto familiar e social, e acompanha a evolução da sua história clínica ao longo do tempo. Essa relação longitudinal constitui um dos pilares da eficiência e da qualidade dos sistemas de saúde modernos.

Garantir médico de família para todos os cidadãos deve continuar a ser um objetivo estratégico. Tal implica reforçar a formação em Medicina Geral e Familiar, melhorar as condições de trabalho, promover modelos organizativos mais flexíveis e valorizar equipas multiprofissionais capazes de responder às necessidades de uma população progressivamente envelhecida e com maior carga de doença crónica. A proximidade, quando bem estruturada, melhora os resultados em saúde e reduz significativamente a pressão sobre os hospitais.

Contudo, seria igualmente simplista acreditar que o reforço dos cuidados primários, por si só, resolverá as dificuldades que hoje se observam no funcionamento hospitalar. Também os hospitais necessitam de uma reorganização profunda que lhes permita recuperar plenamente a sua missão diferenciada.

Durante anos, a pressão constante das urgências e a ausência de respostas alternativas foram transformando muitos hospitais em estruturas predominantemente reativas, onde a resposta imediata se sobrepõe frequentemente ao planeamento clínico, à diferenciação assistencial e, por vezes, até à própria função formativa. Um hospital permanentemente absorvido pela urgência dificilmente consegue cumprir plenamente as suas funções de tratamento especializado, ensino e inovação.

Uma reorganização hospitalar verdadeiramente transformadora exige algumas opções estruturais claras.

A primeira passa por distinguir de forma mais nítida a resposta urgente da atividade assistencial programada. A crescente pressão sobre os serviços de urgência acabou por contaminar a organização global de muitos hospitais, comprometendo a capacidade de planeamento clínico e de organização da atividade diferenciada. Proteger circuitos assistenciais programados constitui uma condição essencial para devolver aos hospitais a capacidade de se concentrarem no tratamento da doença complexa.

Uma segunda dimensão consiste no reforço da lógica de rede hospitalar. Nem todos os hospitais devem procurar fazer tudo. Um sistema de saúde eficiente organiza-se em diferentes níveis de diferenciação, permitindo que cada instituição concentre competências nas áreas onde pode garantir maior experiência clínica e melhores resultados. A concentração de determinados procedimentos complexos em centros com maior volume assistencial tem demonstrado melhorar os resultados clínicos e otimizar a utilização de recursos humanos e tecnológicos.

Por fim, importa reconhecer que o hospital do século XXI não pode continuar a ser pensado exclusivamente como uma estrutura centrada no internamento clássico. A evolução da medicina e dos modelos assistenciais permite hoje tratar um número crescente de situações clínicas em regime ambulatório. O reforço de hospitais de dia, consultas de acesso rápido e unidades de cuidados intermédios pode reduzir significativamente a necessidade de internamento e melhorar simultaneamente a experiência dos doentes.

É também neste contexto que a formação médica deve ser entendida não como uma vítima das dificuldades do sistema, mas como parte integrante da solução. A qualidade da medicina portuguesa sempre assentou numa cultura de exigência formativa, de supervisão próxima e de transmissão de conhecimento entre gerações de profissionais.

Proteger essa tradição implica garantir tempo para ensinar, estabilidade organizativa nos serviços e condições adequadas para a supervisão clínica. Sem formação sólida não existe renovação qualificada do sistema — e sem renovação qualificada nenhum sistema de saúde consegue sustentar-se no longo prazo.

A verdadeira resposta para os desafios atuais do SNS não reside numa oposição entre cuidados primários e hospitais. Pelo contrário, reside na articulação inteligente entre ambos.

Um sistema de saúde moderno precisa de cuidados de proximidade fortes, capazes de prevenir e acompanhar os cidadãos, e de hospitais reorganizados, preparados para tratar aquilo que é complexo e diferenciado. Precisa de continuidade de cuidados, integração em rede e clareza nas funções de cada nível assistencial.

O Serviço Nacional de Saúde não se construiu de um dia para o outro. Ao longo da sua história demonstrou uma notável capacidade de adaptação e evolução.

Os desafios atuais exigem reformas estruturais, liderança institucional e visão estratégica. Mas exigem também confiança na capacidade coletiva dos profissionais que diariamente sustentam o sistema.

Mais do que anunciar o colapso, importa reorganizar o SNS — reforçando a medicina de proximidade e devolvendo aos hospitais a sua verdadeira missão.

Porque, no fim, a força de um sistema de saúde mede-se pela capacidade de garantir proximidade para todos e excelência para quem mais precisa.

Professor Convidado da FMUL
Diretor do Departamento de Medicina da ULSSM