quarta-feira, 13 mai. 2026

O Sistema Nacional Europeu de Saúde

Continuar a pensar o Serviço Nacional de Saúde como se bastasse a si próprio é insistir numa ideia do século passado.

Durante demasiado tempo, em Portugal, falámos da saúde como se ainda vivêssemos dentro de uma fronteira suficientemente larga para nos proteger de tudo. Já não vivemos. A realidade mudou. Os medicamentos não são nacionais. As ruturas de abastecimento não são nacionais. As ameaças sanitárias não são nacionais. A inovação terapêutica não é nacional. E, muito em breve, também a própria informação clínica deixará de ser apenas nacional.

Continuar a pensar o Serviço Nacional de Saúde como se bastasse a si próprio é insistir numa ideia do século passado.

O SNS foi uma das maiores conquistas da democracia portuguesa. Continua a ser uma instituição essencial de coesão, dignidade e justiça social. Mas exatamente por isso não pode ficar prisioneiro de uma visão ultrapassada. Defender o SNS, hoje, já não significa fechá-lo sobre si mesmo. Significa dar-lhe escala, articulação, robustez e futuro. E essa escala, hoje, chama-se Europa.

Há quem veja esta ideia com desconfiança. Há quem ouça falar num futuro Sistema Europeu de Saúde e imagine o fim do SNS, a perda de soberania ou uma espécie de centralismo burocrático distante. É um erro. O que está em causa não é dissolver o sistema português. É evitar que ele fique pequeno demais para os desafios do nosso tempo.

Nenhum país de média dimensão, por mais competente que seja, conseguirá sozinho garantir sempre a melhor resposta em todas as áreas. Não conseguirá, de forma isolada, assegurar igual força negocial na aquisição de medicamentos críticos. Não conseguirá, em todos os momentos, concentrar toda a diferenciação necessária para as terapêuticas mais complexas. Não conseguirá, sem alianças, responder com a mesma robustez a crises sanitárias transfronteiriças. E não conseguirá, cada vez menos, competir sozinho num mundo em que os dados, a tecnologia, a inovação e a capacidade logística se organizam em escala continental.

O verdadeiro debate, por isso, não é entre um SNS nacional e uma Europa distante. O verdadeiro debate é entre um SNS isolado e vulnerável, ou um SNS integrado numa arquitetura europeia que lhe dê mais capacidade para proteger os portugueses.

A Europa já começou esse caminho. Está a construir instrumentos comuns para circulação assistencial, dados de saúde, segurança do medicamento, resposta a emergências e articulação entre sistemas. Talvez ainda não lhe chame, plenamente, um Sistema Europeu de Saúde. Mas a direção é essa. E Portugal faria mal em ignorá-la.

O nosso país deveria estar na linha da frente dessa transformação. Não por submissão ideológica, mas por interesse nacional. Um país inteligente percebe quando a sua soberania real depende da capacidade de agir com outros. Na saúde, soberania não é fazer tudo sozinho. Soberania é garantir que os cidadãos recebem os melhores cuidados possíveis, com segurança, no tempo certo, com continuidade e com acesso ao que a ciência oferece de melhor. Se para isso for preciso mais Europa, então mais Europa não é menos soberania. É soberania mais eficaz.

Isso exige uma mudança de mentalidade e de organização. O SNS tem de continuar a ser português na missão pública, na proximidade e na responsabilidade democrática. Mas tem de passar a ser europeu na escala, na interoperabilidade dos sistemas, na estratégia do medicamento, nas redes de referenciação e na preparação para ameaças futuras.

Temos de preparar os nossos hospitais para funcionarem como nós fortes de redes europeias, e não apenas como ilhas administrativas. Temos de preparar os nossos sistemas de informação para uma verdadeira integração clínica europeia. Temos de pensar o acesso a terapêuticas complexas não apenas em lógica nacional, mas em lógica supranacional. Temos de deixar de ver a Europa como um enquadramento regulamentar e começar a vê-la como a escala natural do futuro da saúde.

Isto não enfraquece o SNS. Fortalece-o.

Aliás, o maior risco não é o de “europeizar” em excesso a nossa saúde. O maior risco é o de insistir num modelo mental estreito, burocrático e defensivo, enquanto o mundo muda à nossa frente. O maior risco é proteger tanto a forma antiga do SNS que acabemos por fragilizar a sua capacidade de cumprir a missão que lhe deu origem.

As grandes instituições públicas não sobrevivem apenas pela memória do que representaram. Sobrevivem porque sabem adaptar-se sem trair os seus princípios. O SNS nasceu para garantir cuidados de saúde universais, tendencialmente gratuitos e assentes na solidariedade. Nada disso é incompatível com uma integração europeia mais profunda. Pelo contrário: num tempo de pressão demográfica, inovação cara, dependências estratégicas e ameaças globais, essa integração pode ser a melhor forma de salvar aquilo que verdadeiramente importa.

Portugal precisa, por isso, de ambição. Precisa de deixar de discutir apenas como remendar o SNS de hoje e começar a pensar o sistema de saúde de amanhã. E o sistema de saúde de amanhã não será apenas nacional. Será, inevitavelmente, europeu.

Chegou o momento de o dizer sem medo: o futuro do SNS não está em resistir à Europa. Está em liderar, a partir de Portugal, a construção de uma Europa da Saúde. Quem quiser mesmo defender o SNS tem de compreender isto. O patriotismo do século XXI não consiste em fechar fronteiras administrativas à realidade. Consiste em garantir que os portugueses não ficam mais pobres, mais frágeis e menos protegidos por falta de visão.

O próximo grande salto civilizacional na saúde não será nacional. Será europeu. E Portugal não pode chegar atrasado.

Prof. e Diretor de Medicina do Hospital de Santa Maria