Quando um cidadão entra num hospital, quer duas coisas muito simples: ser atendido em tempo útil e ser tratado com segurança, com a melhor probabilidade possível de ficar bem. No entanto, quem já passou pela urgência, por consultas sucessivas ou por transferências entre hospitais sabe que o caminho nem sempre é claro. Por vezes, parece uma lotaria: “Onde devo ir?”, “Quem me segue?”, “Porque me mandam para outro lado?”, “Porque é que o mesmo problema tem respostas diferentes consoante o hospital?”..
Há uma ideia que pode tornar o Serviço Nacional de Saúde mais previsível e mais seguro para o utente:
· organizar os hospitais como uma rede hierarquizada, com níveis de diferenciação, e
· garantir que os tratamentos mais complexos acontecem nos locais onde existem equipas, experiência e meios para os fazer com maior segurança.
Rotina perto de casa, complexidade onde há mais experiência
Do ponto de vista do utente, a regra faz sentido e é intuitiva. Para a maioria das doenças comuns,
· infeções,
· descompensações de doenças crónicas,
· pequenas cirurgias,
· exames e consultas de seguimento
o ideal é ter cuidados perto de casa, com equipas acessíveis, continuidade e rapidez.
Mas há situações muito diferentes: intervenções raras, procedimentos de elevado risco, técnicas muito sofisticadas, doenças complexas que exigem várias
especialidades a trabalhar em conjunto e capacidade de resposta 24 horas por dia para complicações. Nesses casos, a pergunta que o utente deveria poder fazer é simples: “Estou a ser tratado no sítio certo para o meu problema?”
Em muitos países, a resposta está organizada por sistema:
· Há hospitais que fazem muito bem a rotina e resolvem a maioria dos problemas do dia a dia;
· Há hospitais mais diferenciados, com capacidade regional, que tratam casos mais complexos;
· E há centros de referência, onde se concentram os processos de maior especialização, com equipas completas e experiência repetida.
Portugal já tem instrumentos para isto, através das Redes de Referenciação
Hospitalar e de Centros de Referência; o desafio é tornar o modelo mais claro, mais operacional e verdadeiramente equilibrado no financiamento e nos recursos humanos.
Persistiu durante anos a ideia errada de que todos os hospitais devem fazer tudo, mesmo quando isso dilui experiencia, aumenta riscos e confunde doentes.
“Ser transferido” não devia ser sinal de falha
Para muitos utentes, ser transferido de hospital é vivido como insegurança: “Estão a desistir de mim?”, “Fiz algo mal?”, “Porque não tratam aqui?”. Na verdade,
quando o sistema está bem desenhado, a transferência pode ser exatamente o contrário: um sinal de qualidade.
Se um hospital reconhece que um determinado procedimento tem mais segurança num centro especializado — porque lá existe uma equipa mais
completa, mais volume de casos, mais capacidade de resposta a complicações
— encaminhar o doente não é fraqueza, é responsabilidade.
O problema é quando as transferências acontecem tarde, de forma improvisada, sem explicação e sem um circuito previsível. Para o utente, o que faz a diferença é a forma como a rede funciona:
· critérios claros sobre “quem faz o quê”;
· resposta rápida;
· informação transparente;
· e garantia de continuidade: o centro especializado trata o que é complexo, mas o hospital próximo acompanha o que é rotina, para que a vida do doente não se transforme numa peregrinação.
Centros de referência: não é “elitismo”, é segurança
Falar de “hospitais de referência” pode soar, à primeira vista, a elitismo. Mas para o utente, a questão não é prestígio — é probabilidade de bom desfecho.
Há procedimentos em que a segurança depende fortemente de:
· equipas com experiência repetida;
· disponibilidade 24/7 de cuidados intensivos e de “resgate” se algo corre mal;
· articulação entre várias especialidades;
· tecnologia e logística que não fazem sentido existir em todo o lado.
Muitos sistemas europeus têm modelos semelhantes: Espanha tem unidades de referência nacionais (CSUR) para situações de alta complexidade, e a União Europeia criou redes de referência (ERN) para doenças raras e complexas, precisamente porque o conhecimento e a experiência não podem estar igualmente distribuídos em centenas de locais. A evidência mostra que concentrar complexidade salva-vidas.
A boa política pública é aquela que transforma isto em garantia para o cidadão: se tiver uma doença rara ou precisar de uma técnica sofisticada, o sistema sabe onde o colocar — e faz isso rapidamente.
E quem paga a conta? Um ponto decisivo: financiar a exigência
Aqui entra um problema estrutural que o utente nem sempre vê, mas sente nos tempos de espera e na qualidade: os centros mais exigentes são também os que ficam mais frágeis se não forem protegidos.
Os hospitais que recebem doentes mais graves, que mantêm prontidão 24 horas, que têm urgências complexas, unidades críticas, ensino e investigação, e que
assumem a responsabilidade de receber transferências, vivem sob pressão permanente. Se o financiamento não reconhecer essa missão, acontece o previsível: os profissionais procuram contextos menos exigentes, e os centros de referência perdem capacidade — com impacto direto em toda a rede.
Por isso, um modelo justo deve prever um financiamento especial para hospitais de referência, não como privilégio, mas como contrapartida da missão: prontidão, complexidade, formação, inovação e suporte à rede. Há países que financiam explicitamente estas “missões” para não dependerem apenas do pagamento por ato.
Do ponto de vista do utente, a tradução prática é simples: quando os centros de referência são sustentáveis, a resposta é mais rápida, mais segura e mais previsível.
O que o utente ganha com isto
Uma hierarquização bem executada traz ganhos muito concretos:
1. Clareza: saber qual é o hospital certo para cada necessidade.
2. Tempo: menos atrasos e menos “vai e vem” entre instituições.
3. Segurança: alta complexidade feita onde há meios e experiência.
4. Continuidade: após a fase especializada, o acompanhamento volta para perto de casa.
5. Equidade: a mesma doença tem o mesmo caminho, independentemente do concelho onde se vive.
A pergunta que importa
No fim, a discussão não é técnica, nem corporativa. É uma pergunta de cidadania:
Quando eu ou a minha família precisarmos de cuidados complexos, o SNS terá um caminho definido, rápido e seguro — e terá profissionais suficientes para o cumprir?
Hierarquizar os hospitais, consolidar centros de referência e financiar de forma justa a missão dos hospitais mais exigentes é uma forma séria de responder “sim”. E isso, do ponto de vista do utente, é o que realmente interessa.
Diretor do Departamento de Medicina da ULS Santa Maria