quarta-feira, 11 fev. 2026

Investigação universitária: o investimento que o público não vê

Grande parte do conhecimento que hoje sustenta avanços na medicina, na engenharia, nas ciências sociais ou nas tecnologias digitais teve origem em projetos cuja utilidade imediata não era evidente no momento em que foram financiados

O que o cidadão vê — e o que fica invisível

Quando um cidadão precisa de um diagnóstico rápido, de um tratamento eficaz ou de uma tecnologia que funcione, tende a ver apenas o resultado final: o exame, o medicamento, o equipamento, a aplicação prática. Raramente se interroga sobre o longo percurso que tornou possível essa resposta. Esse percurso começa, quase sempre, na investigação universitária.

A investigação não é um produto de consumo imediato

A investigação científica desenvolvida nas universidades é, por natureza, um investimento de médio e longo prazo. Não produz resultados imediatos nem garantidos, e é precisamente por isso que não pode ser avaliada com os mesmos critérios de um produto comercial ou de uma prestação de serviços. Exigir-lhe retorno rápido é desconhecer a sua essência e comprometer o seu papel estrutural na sociedade.

O caminho longo do conhecimento até à inovação

Grande parte do conhecimento que hoje sustenta avanços na medicina, na engenharia, nas ciências sociais ou nas tecnologias digitais teve origem em projetos cuja utilidade imediata não era evidente no momento em que foram financiados. Muitos desses projetos surgiram de perguntas fundamentais, de hipóteses exploratórias ou de investigações aparentemente distantes da aplicação prática. No entanto, foi essa liberdade de investigação que permitiu, mais tarde, transformar conhecimento abstrato em inovação concreta.

O equívoco do resultado visível

Existe, por isso, um equívoco recorrente no debate público: a ideia de que a investigação universitária só se justifica quando produz resultados visíveis, rápidos e quantificáveis. Essa lógica ignora que o conhecimento não se desenvolve em linha reta nem obedece a calendários políticos ou económicos. Ignora também que o fracasso faz parte do processo científico e que mesmo investigações sem aplicação imediata contribuem para o avanço global do saber.

Investir em ciência é formar pessoas

Outro aspeto frequentemente negligenciado é o papel formativo da investigação. As universidades não são apenas locais de produção de conhecimento; são também espaços de formação de investigadores, profissionais qualificados e cidadãos críticos. Cada projeto de investigação envolve estudantes, jovens cientistas e equipas multidisciplinares que aprendem a formular problemas, a testar hipóteses, a lidar com a incerteza e a produzir conhecimento rigoroso. Este capital humano é, em si mesmo, um dos retornos mais valiosos do investimento público.

O risco do imediatismo científico

A pressão crescente para demonstrar impacto imediato conduz, muitas vezes, a uma visão redutora da ciência. Favorecem-se projetos de curto prazo, com resultados previsíveis, em detrimento de investigações mais arriscadas, mas potencialmente transformadoras. Este movimento pode gerar ganhos aparentes no curto prazo, mas empobrece estruturalmente o sistema científico e limita a capacidade de inovação futura.

Para além da tecnologia

Importa também recordar que a investigação universitária não beneficia apenas setores altamente tecnológicos. As ciências sociais, humanas e artísticas desempenham um papel fundamental na compreensão das sociedades, na formulação de políticas públicas, na análise de fenómenos culturais e na construção de pensamento crítico. O seu impacto não se mede em patentes ou produtos, mas na qualidade das decisões coletivas, na coesão social e na capacidade de interpretar o mundo contemporâneo.

O custo invisível de desinvestir no conhecimento

Quando o investimento público em investigação é reduzido ou condicionado por lógicas imediatistas, o prejuízo não é apenas académico. É social, económico e cultural. Uma sociedade que desinveste no conhecimento limita a sua autonomia, enfraquece a sua capacidade de resposta a crises e compromete o seu futuro.

Conhecimento como investimento estrutural

Defender a investigação universitária é, portanto, defender uma visão de desenvolvimento sustentado, informado e responsável. É reconhecer que nem tudo o que é essencial é imediatamente visível e que o verdadeiro retorno do conhecimento se manifesta ao longo do tempo, muitas vezes de forma silenciosa, mas profundamente transformadora.

Diretor do Departamento de Medicina da ULSSM
Prof da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa