terça-feira, 16 jun. 2026

Um país que desconfia de quem cria riqueza acaba por distribuir pobreza

O que me preocupa, quando olho para Portugal com alguma distância crítica, não é a falta de talento. O talento existe, em quantidade, em qualidade, em Portugal e na diáspora que teimamos em não conseguir reter. O que nos falta é a confiança colectiva de que vale a pena construir aqui.

Portugal tem um problema com a riqueza. Não com a sua ausência, com a sua existência. Desconfiamos de quem a cria, desconfortamos quem a exibe e olhamos com suspeita para quem a persegue. E depois admiramo-nos de ter tão pouca.

Esta não é uma observação nova. Mas é uma observação que continua a ser verdadeira. E que continua a custar-nos mais do que aquilo que estamos dispostos a admitir.

Durante décadas, Portugal confundiu criação de riqueza com privilégio. Confundiu lucro com exploração. Confundiu quem arrisca com quem especula. E instalámos, de forma subtil mas persistente, uma cultura que valoriza muito mais a intenção do que a execução, muito mais o discurso do que o resultado, muito mais o diagnóstico do que a intervenção. O problema desta confusão não é moral. É prático. Um país que demoniza quem cria valor acaba por não ter valor a distribuir.

O paradoxo é evidente e convém dizê-lo sem eufemismos. As mesmas pessoas que exigem um SNS capaz, escolas com recursos, salários dignos e mobilidade social são, muitas vezes, as mesmas que olham com desconfiança para as empresas que tornam tudo isso financeiramente possível. Não há Estado social sem economia forte. Não há salários sem empresas que os paguem. Não há política pública sem receita fiscal. E não há receita fiscal sem criação de riqueza. A sequência é simples. A resistência cultural em aceitá-la é o que não é.

Quando penso nos bloqueios concretos à criação de riqueza em Portugal, identifico três padrões que se repetem com uma regularidade que já não surpreende, mas que ainda preocupa.

O primeiro é a lentidão, e não estou a falar apenas de burocracia, que é o alvo habitual e fácil de toda a gente. Estou a falar de uma lentidão estrutural na decisão: no investimento, no licenciamento, na contratação, na mudança. No mundo actual, velocidade é competitividade. Países que decidem depressa captam o que os outros deixam passar. Portugal, com demasiada frequência, chega depois.

O segundo é a aversão ao risco. Continuamos a penalizar quem falha e a valorizar pouco quem tenta. O erro empresarial em Portugal ainda carrega um estigma social e financeiro desproporcional ao que acontece noutras economias europeias, e isso desincentiva precisamente as apostas de que mais precisamos. A inovação não nasce da certeza. Nasce da coragem de tentar sem garantia de resultado. Se não tolerarmos o fracasso, não vamos ter muito sucesso.

O terceiro, o mais difícil de resolver porque é o mais profundamente cultural, é que valorizamos as ideias muito mais do que a sua execução. Somos extraordinários nos diagnósticos, nos planos, nos relatórios, nas Task Forces, nas conferências onde se diz tudo correctamente e não se decide nada de concreto. Os países que se transformam fazem-no quando executam. Portugal já sabe o que precisa de fazer. O que falta, na maior parte dos casos, não é diagnóstico. É decisão.

Há um quarto elemento que raramente entra neste debate e que me parece igualmente relevante: o envelhecimento da população. Vamos ter mais pressão sobre os sistemas públicos, menos população activa e uma necessidade crescente de produtividade sem perda de qualidade. Isso significa que a tecnologia deixa de ser opcional e passa a ser estrutural, não para substituir pessoas, mas para libertar pessoas das tarefas que a máquina pode e deve fazer. Significa também que a saúde, a educação e os serviços públicos deixam de ser apenas despesa. São infraestrutura económica. São condição de desenvolvimento. Quem não percebe isto ainda está a ler o problema pela metade.

O que me preocupa, quando olho para Portugal com alguma distância crítica, não é a falta de talento. O talento existe, em quantidade, em qualidade, em Portugal e na diáspora que teimamos em não conseguir reter. O que nos falta é a confiança colectiva de que vale a pena construir aqui. A permissão cultural para tentar, para falhar e para recomeçar sem vergonha. A coragem institucional, e esta é uma responsabilidade do Estado tanto como da sociedade, de premiar quem executa tanto quanto premiamos quem fala.

Precisamos de voltar a admirar quem constrói. Quem investe. Quem cria emprego. Quem arrisca o seu para gerar o dos outros. Uma empresa saudável não é lucro para o empresário: é salários, é fornecedores, são impostos, é inovação, é estabilidade para dezenas ou centenas de famílias. Perceber isto não é uma questão ideológica. É uma questão de honestidade sobre como funciona o mundo.

Um país que demoniza quem cria riqueza acaba inevitavelmente por distribuir pobreza. E Portugal tem talento a mais para se dar a esse luxo.