Um país em falência operacional

O Governo precisa de uma agenda. Miguel Pinto Luz é um ‘politicão’: bem pode fechar os olhos às misérias e às evidências.

Chega o verão e a CP cancela comboios porque o ar condicionado não funciona. Três cavalos com instintos suicidas interromperam, horas a fio, a principal linha ferroviária. Neste inverno, o rio Mondego rachou a meio a autoestrada de maior tráfego. No verão do ano passado, um funicular de madeira, preso por um fio, despenhou-se ladeira abaixo, matando 16 pessoas na capital.

Como antídoto às misérias do presente, o ministro das Infraestruturas escolheu o futuro. Animado pelos vídeos de inteligência artificial, subiu ao palco para apresentar ao país o maior pacote de obras públicas «de sempre».

O novo aeroporto, construído de raiz em Canha, na extremidade mais afastada do Campo de Tiro de Alcochete, é o coração de um país novo.

«Atualmente, não existe no hemisfério ocidental da Europa nenhum projeto tão gigantesco e multidisciplinar como este», exclamou na mesma cerimónia Nicolas Notebaert, presidente da Vinci, empresa que emprega 280 mil pessoas em 120 países.

O que importa, agora, o facto desta multinacional de gestão de aeroportos ter dado parecer negativo ao projeto, em pareceres escritos, entrevistas e audições na Assembleia da República? O que interessa, também, a circunstância de a Ryanair, maior companhia aérea da Europa, o ter considerado um erro estratégico?

O poder político tomou a decisão em função de um relatório mastodôntico, que nenhum ministro ou deputado leu. Esse documento tem lá escrito, preto no branco, que a decisão foi enviesada por metodologias erradas, a favor da solução mais cara.

Bem podem ex-ministros como Carlos Tavares, Daniel Bessa, Elisa Ferreira e Miguel Cadilhe pedir um estudo sério, contas certas e uma explicação para um caminho que parece suicida. Miguel Pinto Luz já viu o problema exatamente como eles: era um dos maiores críticos da solução. Mas agora está no poder. O Governo precisa de uma agenda. E ele é um ‘politicão’, bem pode fechar os olhos às misérias e às evidências desta vida.