Uma Campanha Surreal

O Almirante é o candidato que se mostrou mais impressivo, fundamentalmente, por três razões. A primeira tem a ver com o facto de ser o candidato mais preparado para compreender e lidar com o momento crítico que se vive internacionalmente e que fragiliza um pequeno País, económica e militarmente dependente como o nosso.

Por contraste evidente com anteriores atos eleitorais para a Presidência, a esta campanha nada faltou entre manipulações informativas, boletins de voto com candidatos não validados, ataques pessoais, exibições peripatéticas dos candidatos e golpes de teatro à boca das urnas.

No plano da desinformação, a tracking poll diária da CNN, com evidentes falhanços em sufrágios anteriores quando divulgada a vários dias de distância das eleições parlamentares, condiciona eleitores indecisos, perturba a estratégia e o discurso dos candidatos e constitui um fator potencial de manipulação de um setor de votantes que seguem a campanha pelas televisões. Tão relevante como a liberdade de expressão é a regularidade do ato eleitoral pelo que a lei deveria prevenir a atividade de empresas de sondagens que falhem sucessivamente, por margens de erro excessivas.

Quanto ao resto: pouco País e muitos ataques pessoais; pouca capacidade de alguns candidatos para exorcizarem acusações de conflitos de interesses; discursos assimétricos entre banalidades vagas e autênticos programas de Governo que um Presidente jamais poderia aplicar; uma cacofonia de comentadores televisivos; e, finalmente, emboscadas de última hora feitas por uma aspirante de um “Me too” à portuguesa.

Dito isto e tudo ponderado acho que o Almirante é o candidato que se mostrou mais impressivo, fundamentalmente, por três razões.

A primeira tem a ver com o facto de ser o candidato mais preparado para compreender e lidar com o momento crítico que se vive internacionalmente e que fragiliza um pequeno País, económica e militarmente dependente como o nosso. O Almirante tem conhecimentos de geopolítica e geoestratégia que mais nenhum dos seus rivais possui. Foi das primeiras pessoas que, há anos, apostou no sistema de drones como meio de defesa e de vigilância do território. Por outro lado, quando disse que se candidatava em parte por causa da emergência de Trump os meus amigos conservadores acharam ridículo, mas hoje, depois dos discursos delirantes feitos pelo Presidente Americano sobre os apetites territoriais dos Estados Unidos, talvez tenham mudado de opinião olhando para os Açores e os recursos da Zona Económica Exclusiva. E, finalmente, impressionou portugueses e brasileiros no “Forum Jurídico de Lisboa”, no ano passado, quando antecipou a mudança da ordem internacional de Ialta para um período de desordem imperial, como o que se está a viver, sublinhando, a par do pilar europeu, os nossos interesses atlantistas no triângulo Portugal-Brasil- Angola.

A segunda têm a ver com a sua exigência quase obsessiva pela eficiência. Depois do desastre do início do processo de vacinação dirigido por um quadro político, surgiu a nomeação do Almirante que em plena pandemia implantou um sistema logístico eficiente que salvou vidas e ganhou a gratidão do País. António Costa legou ao País uma administração pública ineficiente e desprovida de autoridade e unidade de ação, agravada por projeto de reformas deficientes na pasta de transição e que não foram ainda superadas no tempo presente. Não podendo governar, um Presidente com o perfil do almirante, pode acompanhar e pressionar de forma exigente, áreas críticas onde a falta de eficiência administrativa claudica: a saúde; a segurança social; o controlo migratório, os fluxos nos aeroportos; a segurança pública nos bairros periféricos, de entre outras. Quando afirma que quer “por ordem nisto tudo” refere-se ao escrutínio da eficiência do estado de que o Governo é o primeiro responsável.

A terceira e última tem a ver com a estatura presidencial do almirante e distância em relação aos partidos que ocupam demasiadas quotas de poder nas instituições. Portugal não carece, neste momento, de Presidentes que digam verdades lapalicianas e mornas; nem pessoas que no exterior envergonhem o País; nem continuadores em Ré menor da atual Presidência; nem manequins; nem tribunos que apostam nas Presidenciais para crescer como candidatos a Primeiro-Ministro.

Pode não ser uma escolha fácil, mas é preferível à abstenção ou à captura por sondagens foscas.

 Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa