Há alguns anos, uma grande empresa nacional procurou-nos para ajudarmos numa solução baseada em tecnologia de plasmas. Esta tecnologia permitia resolver um problema que começava a afetar a competitividade de um dos seus produtos. Não era um desafio trivial, mas também não era um problema sem solução. Curiosamente, a empresa tinha participado pouco tempo antes num projeto europeu de vários milhões de euros destinado precisamente ao desenvolvimento de uma tecnologia baseada em plasma capaz de mitigar esse problema. O projeto envolvera parceiros internacionais, consumira recursos significativos e culminara com a entrega de um equipamento sofisticado. O único problema era que, findo o projeto, ninguém sabia utilizar o equipamento para o incorporar na linha de produção.
Depois de analisarmos a situação, apresentámos uma proposta relativamente modesta. Cerca de 60 mil euros, destinados sobretudo a financiar algum equipamento e uma bolsa de doutoramento que permitisse desenvolver o conhecimento necessário para colocar o sistema em funcionamento, adaptá-lo às condições específicas da empresa e transformar uma peça de equipamento num instrumento efetivamente útil. A proposta foi considerada demasiado cara e o assunto ficou por aí. Ou pelo menos assim parecia.
Cerca de um ano mais tarde, um colega de outro departamento contactou-nos. Tinha sido abordado pela mesma empresa para resolver exatamente o mesmo problema. Batendo no departamento ao lado, a empresa encontrara alguém que oferecera uma solução a preço de saldo. Um preço suficientemente baixo para justificar avançar. Havia apenas uma dificuldade: o preço era mais barato, mas o conhecimento especializado estava do nosso lado e o colega precisava da nossa ajuda para executar o trabalho.
A história é suficientemente caricata para me provocar um sorriso amargo, mas revela algo muito mais interessante do que uma simples negociação falhada. Esta história expõe uma visão profundamente enraizada sobre a forma como valorizamos o conhecimento. Apesar de décadas de discurso político sobre inovação, transferência de tecnologia e economia do conhecimento, continuamos frequentemente a olhar para as universidades e unidades de investigação como entidades públicas cujo conhecimento deve estar disponível a baixo custo. Como recebem financiamento do Estado, assume-se que já estão financiadas. Como os seus investigadores são movidos pela curiosidade intelectual, assume-se que estarão sempre disponíveis. E como o conhecimento é produzido dentro ou próximo das universidades, assume-se que a sua utilização tem um custo marginal próximo de zero. Nenhuma destas premissas corresponde à realidade.
O financiamento público do sistema científico está longe de cobrir integralmente as suas missões e muitas vezes não só incerto como chega com atrasos significativos. Formar estudantes, manter laboratórios, renovar equipamentos, atrair talento internacional, criar emprego científico e desenvolver investigação competitiva exige recursos substanciais. A resiliência tornou-se uma condição de existência mas há algo de profundamente errado quando a principal qualidade de um sistema científico é a sua capacidade de sobreviver. É um pouco como admirar um náufrago pela sua capacidade de permanecer à tona e concluir que, afinal, não precisa de barco. A escassez é ainda agravada por uma distribuição assimétrica dos
recursos que nem sempre acompanha a intensidade científica ou a capacidade de captar financiamento competitivo.
O conhecimento especializado e no estado-da-arte que uma empresa procura adquirir num contrato de algumas dezenas de milhares de euros não nasceu quando surgiu o problema. É o resultado de anos, muitas vezes décadas, de investimento acumulado em pessoas, infraestruturas e competências. Talvez por isso continue a surpreender-me a facilidade com que estas empresas aceitam pagar por máquinas, software ou instalações e a dificuldade que têm em pagar pelo conhecimento necessário para tirar verdadeiro partido desses recursos. O caso do equipamento de plasma ilustra bem este paradoxo. Milhões de euros foram investidos para desenvolver a tecnologia, o equipamento foi construído, os relatórios foram entregues e o projeto foi concluído. No entanto, o elemento essencial para transformar tecnologia em valor continuou ausente e foi considerado demasiado caro quando chegou o momento de o desenvolver. É demasiado fácil confundir aquisição de tecnologia com construção de competência. A tecnologia pode ser comprada. A competência tem de ser desenvolvida.
Uma economia que desenvolve competência cria a capacidade de resolver os problemas de amanhã, incluindo aqueles que ainda não consegue antecipar hoje. É precisamente aqui que reside uma das funções mais valiosas do sistema científico, desenvolver as competências que permitem transformar conhecimento em valor. Quando esse papel é reduzido ao fornecimento de serviços ou de mão de obra qualificada a baixo custo, perde-se uma parte importante do seu valor estratégico.
E o prejuízo não é apenas das universidades mas também das empresas. A inovação nasce do encontro entre quem conhece os problemas e quem desenvolve o conhecimento necessário para os resolver. Quando esta relação falha, acabamos com equipamentos que ninguém sabe utilizar e com os mesmos problemas a regressarem ciclicamente à procura de uma solução barata. Enquanto continuarmos a ver as universidades como consultoras tecnológicas subsidiadas pelo Estado ou reservatórios de talento barato, dificilmente construiremos um verdadeiro sistema de inovação. Não porque a competência seja cara, mas porque continuamos a esperar competência de classe mundial ao preço de saldo.
Investigador do Instituto Superior Técnico / Presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear