“Ele até parece normal!”. Pausa. Imaginem esta frase, sobre mim, dirigida a uma professora, após uma conferência. Ri-me surpreendido, mas fiquei a pensar… Porque quem diz “normal” parte do pressuposto que os cientistas são excêntricos, isolados, estranhos. Cabe a cada um de nós, profissionais da ciência combater a representação distorcida da ciência e dos cientistas como seres fora do nosso alcance.
O mito dos génios inalcançáveis. A área das STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) é vista como “difícil, monótona, inacessível” e “sem impacto social direto”. A série “A teoria do Big Bang” apresenta uma caricatura dos cientistas como nerds solitários, sem vida social. Mas atualmente o maior antagonista é a desinformação digital. Jovens absorvem fake news e sonham com carreiras de influencer, porque querem impacto e reconhecimento imediato e fama.
Ciência = Pessoas normais. Quando o aluno disse que “pareço normal”, percebi algo fundamental: a comunicação científica tem o poder de derrubar algumas destas muralhas. Mas o que significa ser normal? E mais importante, como quebramos essas barreiras para inspirar os jovens a verem a ciência como algo acessível e fascinante? Ou os mais graúdos a compreenderem temas complexos e aceitarem o progresso científico? Mostrar que os cientistas têm hobbies, dúvidas, humor é mostrar que a ciência está acessível e que investigadores não são seres especiais e diferentes, especialistas inalcançáveis e alguém de quem se deve desconfiar.
A ciência resolve problemas da sociedade e contribui para o progresso da humanidade e também pode ser empolgante, pode divertir e pode inspirar. Só precisa de boas histórias, de pessoas que as saibam contar, de vozes que sejam humanas. Comunicar ciência não é só explicar conceitos complexos ou mostrar gráficos. É transformar o que parece inatingível em algo próximo, humano e inspirador e mostrar que, atrás de cada descoberta, existe uma pessoa normal que tem ambição de contribuir para melhorar o mundo. É transformar percepções. É inspirar outros a explorar, a descobrir e a acreditar que podem fazer parte deste mundo fascinante.
E às vezes é também uma oportunidade para inspirar gerações. Lembro-me bem de um contacto numa rede social: “Após a sua apresentação, a minha filha ficou entusiasmada com física nuclear… A minha esposa ficou perplexa e lançou-me uma série de questões: quais as saídas profissionais?” Em resultado dos meus 45 minutos de apresentação, uma família inteira questionou o futuro. Uma apresentação é uma oportunidade para acender uma faísca! Quando tornamos a ciência acessível, criamos curiosidade, oportunidades e paixão. É um momento para mostrar aos jovens que há um mundo de possibilidades à espera deles. Temos a missão de os inspirar. Às vezes as notas são boas, até suficientes para medicina, engenharia física tecnológica ou engenharia aeroespacial. Mas costumo dizer-lhes: “a pergunta mais importante não é ‘o que vais fazer’, mas ‘o que nunca vais querer fazer’ porque ‘tudo o resto são oportunidades’”. E, às vezes, mudamos vidas. A jovem da pergunta é hoje estudante de física.
As crianças acreditam que os cientistas fazem “poções”, ou que um cientista vive sempre de bata e cabelos esquisitos ao vento. Mas quando participam em encontros com cientistas, como fazemos em atividades do Instituto Superior Técnico como o Dia Aberto entre outras, vêem quem está por trás da ciência e adoptam uma visão diferente. Numa ocasião, falei sobre energia, incluindo fusão nuclear, para alunos da 4.ª classe onde por casualidade estava presente o filho de um colega. No dia seguinte, recebi um email:‘Ontem, no carro, o meu filho deu-me uma aula sobre plasmas. Disse-me que são a energia do futuro e têm milhões de graus. Depois perguntou: ‘Pai, como é que se mete uma estrela numa máquina?’’. Eu respondi: ‘Quando o trouxeres ao Técnico, eu mostro-lhe o nosso tokamak para ele descobrir como fazemos uma estrela na Terra’’’. Este é o poder da curiosidade infantil, despertada por uma simples conversa sobre ciência. Convidei-o a visitar o nosso tokamak no Técnico, para ver com os próprios olhos como tentamos ‘meter uma estrela dentro de uma máquina’. Crianças têm a capacidade inata de simplificar o complexo. Têm a capacidade de sonhar… até com estrelas dentro de máquinas.
Comunicar ciência é também uma forma de resistir ao negacionismo. Vivemos numa sociedade moldada por ciência e tecnologia mas nunca foi tão fácil espalhar desinformação científica e confundir opinião com evidência. A desconfiança com a ciência floresce na ignorância, nas explicações fáceis e na polarização. A ciência não se explica sozinha e quando quem a produz não a comunica, é reinterpretada por outros, movidos por audiências, influência, ideologia ou lucro. Quando um investigador não explica o que sabe, abdica do seu papel social e deixa o espaço aberto a versões simplificadas, ou deliberadamente falsas, da realidade. Negacionismos, teorias simplistas e soluções mágicas não vencem debates técnicos apenas ganham espaços vazios. Em temas complexos e controversos, como é o caso da energia nuclear, falamos muitas vezes com pessoas cujas convicções já se tornaram identidades e cujo pensamento cristalizou num conjunto de convicções inabaláveis. Todos temos vieses, e admitir que estamos errados tem um custo emocional. Lee McIntyre aborda este tópico no seu livro How to Talk to Science Deniers, embora note que “resistentes a factos não são imunes a factos”. É com empatia, paciência, narrativa bem construída, que podemos plantar uma semente que pode crescer, mesmo num solo que parecia árido. “A ciência é muito mais que um corpo de conhecimentos. É uma maneira de pensar.” escreveu Carl Sagan, e hoje mais que nunca, é importante cultivar o pensamento crítico e a curiosidade científica, elementos essenciais para enfrentar os desafios contemporâneos e combater a desinformação.
Comunicar ciência em público implica exposição e a exposição implica risco: críticas agressivas, ataques pessoais, instrumentalização política. Não são argumento suficiente para a inação mas a realidade é que não basta aos cientistas descerem da torre de marfim, a sociedade tem de bater à porta do conhecimento e reconhecer a sua importância. Se queremos respostas sérias para problemas sérios, é urgente que governos, instituições e cidadãos exijam a presença ativa de investigadores nas discussões e decisões acerca dos problemas grandes questões societais. A ciência não pode limitar-se ao laboratório e à publicação académica; tem de ser uma bússola para políticas públicas, para desafios societais, para o futuro coletivo. Se não chamarmos as universidades, unidades de investigação e investigadores a intervir, corremos o risco das decisões serem guiadas por convicções sem fundamento e desligadas da realidade. Apresentar factos científicos é um ato de resistência que oferece ferramentas contra o medo e a ignorância, usando a curiosidade como arma contra a desinformação.
Existe em cada apresentação, cada conversa, cada artigo de opinião, uma oportunidade de acender outra estrela. Aquilo que acendemos hoje pode brilhar daqui a décadas e não precisamos de ser super-heróis para inspirar. Basta acreditarmos que cada mente curiosa merece ser despertada. Que cada jovem, cada filho, cada miúdo que conhecemos, pode trazer uma nova estrela, seja na forma de descoberta, inovação ou simplesmente na paixão pela busca. E que o negacionismo se destrói com factos, erodindo certezas cristalizadas e plantando sementes de dúvida no terreno das crenças erradas. É esta chama que torna a ciência acessível. Acendamos estrelas!
Investigador do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, e Presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear (IPFN)