Vivemos uma guerra em pleno continente europeu. Não surgiu por acaso. Resulta de falhas diplomáticas acumuladas, de erros políticos repetidos e de uma União Europeia cada vez mais dependente, endividada, sem estratégia e liderada por pessoas e estruturas burocráticas sem legitimação democrática. Uma Europa presa ao passado do pós-II Guerra Mundial, ao Plano Marshall e à lógica da Guerra Fria, incapaz de se adaptar à realidade do presente ou de antecipar o futuro que já chegou.
A geração adulta do pós-Guerra garantiu décadas de prosperidade e paz, mas essa memória perdeu-se. Esquecemo-nos de que a paz não é garantida, constrói-se e protege-se todos os dias. A ausência dessa geração e dessa consciência colectiva trouxe-nos novamente à guerra e a um estado de vulnerabilidade e de permanente instabilidade.
Portugal enfrenta hoje este novo mundo numa posição de fragilidade. Já não dispõe da margem de manobra estratégica que teve noutras fases da sua História, quando conseguiu garantir a neutralidade, evitar invasões no território continental europeu e resistir a fortes pressões internacionais sobre os seus territórios ultramarinos, incluindo propostas concretas por parte dos Estados Unidos da América para a independência das colónias ultramarinas portuguesas, acompanhadas de compensações financeiras para Portugal, mas sempre rejeitadas por Salazar, conforme bem recorda Witney W. Schneidman em Engaging Africa: Washington and the fall of Portugal’s Colonial Empire. Durante essa época, Portugal tinha relevância suficiente para contrariar tentativas externas de condicionamento político e estratégico. Hoje, infelizmente, essa margem e esse poder desapareceram.
Num contexto global em que a aquisição de territórios, o controlo de recursos e a projecção de poder voltaram ao centro da política internacional (relançando a doutrina Monroe de 1823, hoje para o actual presidente Donald Trump “doutrina Donroe” em sua honra), como demonstram precedentes históricos claros e, mais recentemente, situações como a da Venezuela ou a reemergência do interesse estratégico sobre a Gronelândia (que no âmbito da actual administração Americana e da nova doutrina prosseguida se assemelhará à compra por parte dos Estados Unidos da América das Ilhas Virgens Americanas à própria Dinamarca em 1917), a perda de peso político dos Estados médios e pequenos tornou-se evidente.
Como bem me comentou o meu amigo João Antas de Barros, as regras da política global deixaram de ser ditadas pelo direito internacional e passaram a ser determinadas pelo poder, pela influência e pelo controlo de recursos. E, infelizmente, a Europa ficou para trás.
Portugal, tal como na Primeira Guerra Mundial, voltou a ser percepcionado como um país pequeno, endividado, com reduzido peso estratégico e limitada capacidade de influência. Num mundo mais duro e menos previsível esta percepção é muito preocupante.
Enquanto a Europa se fragiliza, o mundo avança. Novas potências cresceram exponencialmente nas últimas décadas nos planos económico, militar, tecnológico e geopolítico e actuam hoje de forma pragmática, orientadas pelos seus próprios interesses, sem ilusões nem romantismos.
A verdadeira questão não é ideológica. É prática. Portugal e a Europa estão preparados para enfrentar este novo contexto global? Têm hoje a robustez política, económica e estratégica necessária para defender os seus interesses?
Já não temos tempo para adiar decisões nem para continuar a desperdiçar o pouco que ainda resta do que conquistámos. Portugal precisa de voltar a ser Portugal.
O futuro não pode ser sempre uma promessa ou um sonho.
O futuro tem de ser uma missão concreta que começa hoje.
Empresário e gestor, investigador em Estratégia Nacional