sexta-feira, 17 abr. 2026

Portugal está refém da Constituição de 1976

Cinco décadas depois, Portugal continua preso a uma Constituição ideológica, extensa e desajustada do mundo actual.

Portugal vive hoje condicionado por uma Constituição que já não corresponde ao País que é, nem ao mundo em que se insere. Foi escrita num contexto revolucionário muito específico (após o golpe militar de 1974, assente em reivindicações salariais) e nunca foi verdadeiramente libertada desse enquadramento. Apesar de sucessivas revisões, continua a transportar uma carga ideológica e programática que já não reflete a realidade contemporânea.

Cinco décadas depois, o País e o mundo mudaram profundamente. Mudaram os equilíbrios geopolíticos, a economia global e a própria natureza do poder. Mas Portugal, que durante séculos esteve na vanguarda do globalismo e das inovações políticas e institucionais, permanece, em muitos aspectos, condicionado por esse momento histórico.

O exemplo mais evidente é o preâmbulo constitucional. Inexistente nas Constituições anteriores, continua hoje a afirmar o objectivo de “abrir caminho para uma sociedade socialista”.

Não se trata de um detalhe simbólico. Trata-se de uma orientação inscrita no texto fundamental do Estado.

É, por isso, legítimo perguntar: porquê? E para quê?

Uma Constituição não deve ser um manifesto político. Deve ser um quadro institucional estável, transversal a diferentes gerações e maiorias, capaz de garantir liberdade e adaptabilidade constante.

Mas o problema não se esgota aqui.

A Constituição portuguesa tornou-se uma das mais extensas do mundo democrático, com 296 artigos. A comparação internacional é elucidativa: os Estados Unidos têm 7 artigos originais; a França cerca de 90; a Alemanha pouco mais de 150 e Espanha 169.

Não é por acaso que as constituições mais extensas tendem a surgir em sistemas onde se procura compensar fragilidades institucionais com excesso de detalhe normativo (como sucede, por exemplo, na Índia e na Nigéria). Onde se desconfia do futuro e se tenta aprisioná-lo no texto constitucional.

As Constituições de 1911 e 1933, apesar dos seus contextos históricos distintos, eram textos mais concentrados no essencial. Focavam-se na organização do Estado e não na tentativa de antecipar todas as decisões políticas futuras.

Uma Constituição deve definir regras do jogo. Não deve substituir-se à política.

É por isso que Portugal precisa de uma reforma constitucional séria, estruturada e ambiciosa, assente em pelo menos 11 pontos principais:

1. Eliminar o preâmbulo ideológico e, com isso, retirar qualquer referência programática a modelos económicos e/ou sociais;

2. Reduzir significativamente o número de artigos (idealmente para cerca de 100);

3. Redimensionar a Assembleia da República, reduzindo o número de deputados para cerca de 101, aproximando Portugal das dimensões parlamentares de outros países europeus.

4. Rever o método d’Hondt e introduzir círculos uninominais com um círculo nacional de compensação, aproximando eleitores e eleitos, numa lógica há muito defendida por José Ribeiro e Castro.

5. Dar relevância efectiva ao voto em branco, permitindo que uma maioria se traduza em lugares vazios na Assembleia da República com consequências políticas directas;

6. Estabelecer voto obrigatório como dever cívico essencial. Quem não vota também não deve poder beneficiar de determinados direitos, incluindo apoios públicos ou benefícios estatais, reforçando a ideia de que a cidadania implica sempre responsabilidades;

7. Definir constitucionalmente Portugal como Portugal. Os regimes podem evoluir e adaptar-se, mas a Nação permanece e, como tal, o nome também;

8. Eliminar os limites materiais à revisão constitucional previstos no artigo 288.º, permitindo que as gerações futuras possam decidir democraticamente sobre a evolução do sistema político. A geração passada e vigente não pode limitar nem condicionar a geração futura;

9. Introduzir a possibilidade de referendos por iniciativa popular, incluindo sobre revisões constitucionais e sobre a própria forma de regime. Sem tabus. Por exemplo, qual o medo de se poder ter a iniciativa de se fazer o referendo necessário sobre Monarquia ou República?;

10. Reforçar as incompatibilidades entre política e negócios, impedindo governantes e deputados de participarem directa ou indirectamente em empresas dependentes de decisões públicas ou com as quais tenham tido relações durante o exercício de funções;

11. Reforçar constitucionalmente a defesa nacional e a soberania, com especial atenção à dimensão marítima de Portugal.

Estas propostas não são radicais. São uma tentativa de recentrar a Constituição no essencial.

Uma democracia madura não deve temer a revisão das suas bases. Deve garantir que essas bases continuam adequadas ao tempo em que vive.

Portugal enfrenta hoje um mundo instável, mais competitivo e mais exigente. A defesa, a soberania e a qualidade das instituições deixaram de ser temas abstractos. São hoje factores críticos de autonomia nacional.

Portugal continua a discutir o futuro condicionado pelo passado. O Estado Novo deve ser estudado, analisado e criticado com rigor. Mas não pode continuar a ser utilizado como instrumento automático de bloqueio de qualquer debate estrutural.

Um país que precisa constantemente de invocar o passado para evitar discutir o futuro é um país que já começou a perder.

Portugal merece mais. Merece uma Constituição mais simples, mais clara, mais aberta e mais adaptável. Uma Constituição que não seja um reflexo de 1976, mas uma base para o futuro.

Precisamos de uma Constituição que não sirva uma ideologia.

Precisamos de uma nova Constituição que volte a servir Portugal.