Tenho estado mais calado porque, de facto, estou preocupado com o futuro e com o fim acelerado de muitas das verdades, equilíbrios e referências que julgávamos permanentes.
Em 2022 escrevi e registei que vivíamos cerca de 28 instabilidades e quasiguerras.
Em 2026, a realidade é substancialmente diferente. Vivemos cerca de 61 conflitos armados activos (o maior número registado desde 1946), mais de uma centena de crises políticas relevantes e dezenas de conflitos envolvendo centenas de actores não estatais espalhados pelo mundo. Paralelamente, assistimos a cerca de 67 processos eleitorais nacionais e regionais.
Mas os números, por si só, não explicam a verdadeira dimensão do problema.
Talvez a principal característica do nosso tempo seja precisamente esta: tudo parece estar ligado a tudo e quase nada pode já ser compreendido de forma isolada.
Nenhum dos conflitos vigentes será resolvido através das receitas, dos entendimentos ou das instituições que marcaram as últimas décadas. Será necessário compreender e respeitar novas geometrias de poder, novas lideranças, novos interesses e novos equilíbrios globais. Os valores do passado continuam a ser importantes, mas já não são suficientes para resolver os desafios dos nossos tempos.
Todos os continentes vivem conflitos, tensões ou disputas estratégicas relevantes. E, por isso, recordo frequentemente uma reflexão do Professor Adriano Moreira: talvez seja agora que vivemos verdadeiramente uma guerra mundial. A tal guerra global, distribuída, permanente e multifacetada.
Vivemos igualmente o fim da globalização (económica) tal como a conhecemos.
Durante décadas, o comércio internacional assentou numa premissa simples: a paz e a previsibilidade seriam suficientes para garantir a livre circulação de pessoas, mercadorias, energia e capitais. Hoje percebemos que essa realidade mudou. Surgem sanções, blocos económicos concorrentes, guerras tecnológicas, disputas energéticas, restrições comerciais e novas formas de proteccionismo.
Não se trata de uma anomalia temporária. Trata-se de uma consequência natural da nova realidade geopolítica.
A História ensina-nos que os grandes ciclos de globalização terminam normalmente quando deixam de existir potências capazes de garantir simultaneamente segurança, estabilidade monetária e liberdade de circulação. Foi assim com Roma. Foi assim com os impérios marítimos europeus. Foi assim com a ordem britânica do século XIX. E poderá estar a acontecer perante os nossos olhos com a ordem internacional construída após 1945.
Aliás, passará pela cabeça de alguém que as principais potências globais permitiriam à Europa investir centenas de milhares de milhões de euros no seu rearmamento até 2032 para depois não utilizar o poder estratégico, industrial e militar que está a construir?
Ao mesmo tempo, muitas das actuais lideranças políticas e institucionais revelam-se opacas e obsoletas.
Opacas porque frequentemente parecem servir interesses pessoais, partidários ou de grupo que pouco têm a ver com os interesses das respectivas populações.
Obsoletas porque muitas das instituições criadas para garantir a estabilidade mundial deixaram de reflectir os actuais equilíbrios de poder e o novo xadrez geopolítico global. Veja-se o estado da ONU, da NATO ou mesmo da própria União Europeia.
Neste contexto, o pseudo-líder do mundo ocidental afasta-se progressivamente da Europa, continente que financiou, protegeu e influenciou durante décadas, para se concentrar cada vez mais no continente americano e nos seus interesses estratégicos mais imediatos.
Tudo isto acontece num momento particularmente delicado para os Estados Unidos da América, cuja dívida pública atingiu níveis historicamente sem precedentes.
Para se ter uma ideia, os encargos anuais com juros da dívida já ultrapassam USD 1 trillion e tendem a aumentar significativamente durante a próxima década.
As duas maiores rubricas do orçamento federal norte-americano são hoje os juros da dívida e a defesa, superior a USD 900 billion anuais.
A História também nos ensina que nenhuma grande potência perde influência por falta de riqueza. Perde-a quando o custo de manter a sua posição ultrapassa a capacidade de a financiar.
Ao mesmo tempo, reaparecem novos líderes, novas potências e novos centros de decisão global, quer gostemos ou não dos respectivos protagonistas.
E passados estes mais de quatro anos de guerra, a Europa começa lentamente a perceber uma realidade que muitos ainda recusam admitir: a Rússia não desaparecerá. Poderá mudar de liderança, de regime ou de posicionamento estratégico. Mas continuará a ocupar o mesmo espaço geográfico, a deter os mesmos recursos naturais e a influenciar o mesmo continente.
Por isso, quando regressar a paz, a questão estratégica deixará de ser como isolar a Rússia e passará a ser como enquadrar a Rússia numa nova arquitectura de estabilidade europeia. Porque a geografia não muda. E a História demonstranos, repetidamente, que os grandes equilíbrios europeus foram sempre construídos com a Rússia e nunca contra a Rússia.
Foi assim no Congresso de Viena. Foi assim na derrota de Napoleão. Foi assim no equilíbrio europeu do século XIX. Foi assim na derrota do nazismo. Gostemos ou não, a Rússia continuará a ser uma realidade europeia.
Por outro lado, não podemos esquecer nem desconsiderar as novas realidades monetárias, as fugas para as criptomoedas por parte de países sujeitos a sanções internacionais, as transformações cambiais que estão a gerar enormes transferências de riqueza entre economias, o crescente questionamento da hegemonia absoluta do dólar ou daquilo que considero ser o verdadeiro tema da próxima geração: a inteligência real (e já não artificial) e a forma como esta transformará Estados, sociedades, nações e civilizações.
É neste contexto que Portugal se posiciona.
E Portugal não é um país qualquer. Foi o país que criou a primeira globalização da História. Foi o país que ligou continentes, criou rotas marítimas globais, construiu pontes entre civilizações, garantiu durante séculos a segurança de importantes corredores comerciais internacionais e comunga com Nações irmãs uma das línguas mais faladas do Mundo.
Durante mais de um século assegurou a estabilidade de algumas das mais importantes rotas comerciais marítimas do planeta, incluindo as ligações entre a Europa, África, Índia, Sudeste Asiático e, em especial, o Golfo Pérsico.
Mas vive hoje limitado por uma classe política demasiadas vezes incapaz de pensar estrategicamente o País.
Uma classe política que se perdeu em interesses pequenos, tácticos e clubísticos. Que não sabe valorizar o que temos. Que não sabe potenciar os nossos activos. Que não sabe explorar plenamente oportunidades extraordinárias como a extensão da plataforma continental, a nossa posição atlântica, os recursos marítimos ou a nossa relevância geoestratégica.
Uma classe política que, em demasiados casos, gere a escassez em vez de criar prosperidade. E que tem garantido aos portugueses uma vida mais difícil, mais desigual e menos ambiciosa.
Não há direito que assim seja.
Mas a mudança tornou-se igualmente difícil devido aos bloqueios criados pelo próprio sistema. Apregoa-se democracia. Mas demasiadas vezes os cidadãos sentem que vivem num sistema onde votam sem decidir, pagam sem influenciar e assistem sem participar.
A democracia não morre apenas quando desaparece o voto. Morre também quando desaparece a confiança. Morre quando desaparece a meritocracia.
Morre quando desaparece a responsabilidade. E morre quando as instituições deixam de servir os cidadãos para passarem a servir-se a si próprias. Os países não desaparecem quando perdem riqueza. Os países começam a desaparecer quando perdem visão.
Qual a visão actual de Portugal?
Qual a Estratégia Nacional e a Missão que nos orientam?
Para quando a sua definição e prossecução?
No fundo, é por tudo isto, e a impotência de pouco ou nada poder fazer, que tenho preferido escrever menos.
Mas tudo farei para ajudar a reverter o actual miserabilismo nacional e devolver ambição a Portugal