Há algumas semanas, um amigo que tem um restaurante no Beato chamava-me a atenção para a ‘nova’ caça aos ‘caixotes’ de lixo, que estavam a deixar as ruas numa imundice completa. Sendo um homem ligado a um partido de extrema-esquerda, olhava para o fenómeno com natural tristeza. Umas semanas depois, a conversa alargou-se: «Tenho três sacos enormes com garrafas de plástico e latas e já não tenho espaço para guardar mais. O problema é que sempre que vou às compras e levo as garrafas, chego lá e ou está uma fila enorme, com outros comerciantes a tentarem fazer o mesmo, ou as máquinas estão avariadas, porque alguém tratou de as estragar. Ao lado das máquinas lá está um sem-abrigo, coitado, a pedir as garrafas. Este sistema não funciona».
A Volta, é assim que se chama o ‘programa’ de devolver as garrafas de plástico e as latas dos refrigerantes, vai dar muito dinheiro a ganhar a alguém, mas está a ser um inferno para muitos comerciantes, e não só, e veio ainda contribuir para que as cidades fiquem mais sujas, pois são muitos os que revolvem os contentores, e não só, para encontrarem os 10 cêntimos de cada embalagem. Se Lisboa, por exemplo, já é uma cidade suja, estando-se a assistir a pragas de baratas em zonas que até há pouco tempo não tinham o desprazer de tais visitas – muito devido ao lixo deixado pelos restaurantes de fast food, veja-se Alvalade – com esta história da Volta e do regresso aos caixotes de lixo, a capital ainda vai ficar mais suja e perigosa, em termos de saúde. Pragas de baratas e afins não são propriamente o melhor cartão de visita, nem são tão pouco amigas da saúde, mas é só percorrer alguns grupos de WhastApp de ‘amigos de bairros’ para se perceber que este é o cenário atual.
Carlos Moedas já veio pedir que se repense o programa Volta, e fez muito bem, mas podia aproveitar a boleia do verão para ir até Sevilha e aprender como se mantém uma cidade limpa, mesmo com milhões de turistas. Mas acredito que Lisboa será uma cidade limpa quando a ciclovia da Almirante Reis tiver desaparecido, tal como prometeu o autarca da cidade...
O poder de contestação na Europa resume-se a grupos de extrema-esquerda pelo clima e contra o capitalismo. Veja-se o que se passa em Paris para percebermos isso. E por saber que o povo é manso é que políticos como Pedro Sánchez, atolado em escândalos de corrupção, decide lançar mais uma guerra aos fumadores, proibindo-os de fumar ao ar livre, remetendo-os quase para a clandestinidade das suas casas. Como é possível deixarmos que esta geração de políticos decida instaurar fatwas sobre a nossa liberdade? Onde anda o é proibido proibir? A história dos fumadores – e todos sabemos que faz mal, como muitas outras coisas – serem proibidos de terem, por exemplo, restaurantes só para eles, revela bem o caminho da história.
Uns seres superiores, alguns políticos, entendem o que nos faz bem ou mal e o que podemos ou não fazer. Quando se fala do Estado Novo, e sobre as coisas caricatas – e não estamos a falar da perseguição a quem pensava de maneira diferente e que muito sofreu em cadeias – logo surge à cabeça a licença de isqueiro que era necessária para se poder fumar. A ditadura foi combatida por muitos , mas aplaudida por muitos mais – como o demonstram, por exemplo, as manifestações em que o chefe de Estado aparecia. No entanto, não era por isso que deixava de ser uma ditadura, onde não existia liberdade. Hoje, vivemos em liberdade, mas os nossos direitos são cada vez mais reduzidos, esmagados por burocratas que se comportam como os novos evangelizadores do povo.
Telegramas
Um ministro à prova de bala
Luís Neves, é preciso reconhecê-lo, é uma figura surpreendente. Não creio que haja memória de uma história destas, de um ministro que enquanto diretor da PJ permitiu que materiais ‘perigosos’ passassem a ser guardados por um amigo, e tivesse quase a unanimidade no apoio... do partido da oposição. Fernando Medina, esse arauto da democracia e da transparência, que tem uma bela vista da cidade, ‘cegou’ ao falar do tema, vendo uma conspiração da extrema-direita no caso. Genial! Já Sérgio Sousa Pinto quando fala do tema faz lembrar um corredor de atletismo que ultrapassa a meta e continua a correr sem se aperceber que a corrida já terminou. O seu entusiasmo a defender Luís Neves chega a ser enternecedor. Por outro lado, Rui Rio, quem diria, questiona o apoio do PS a Luís Neves e deixa no ar que deve haver uma explicação para o facto. Como disse, não me recordo de um caso em que um ministro é mais defendido pelo partido da oposição do que pelo seu próprio partido – ou Governo.
Gravidez indesejada
Jens Spah, líder parlamentar dos conservadores alemães, demitiu-se por se ter descoberto que ele e o seu marido tinham recorrido a uma barriga de aluguer, algo proibido na Alemanha. «A decisão é a acertada e era inevitável. Credibilidade é o bem supremo na política», disse Friedrich Merz, chefe do Governo alemão. Merz falou em credibilidade? Que palavra estranha em português.