Não, não está tudo bem

Vulgarmente olhamos para a política como um storytelling de bons e maus e raramente a encaramos como uma ciência social que necessita de uma análise multidisciplinar.

Entendo perfeitamente que tenhamos respirado de alívio na segunda volta das presidenciais, mas não aceito isto como uma espécie de vitória contra o populismo. Não aceito porque, se fizermos uma análise cientificamente fria, não se adivinha nada de bom. Apesar de achar os termos "moderados" e "populistas" um bocado imprecisos, para não dizer preguiçosos, vou ter de me socorrer dos mesmos.

Assim sendo, e seguindo a senda da narrativa política vista como uma novela de bons e maus, tenho de referir em primeira mão que acho esta "beatificação" dos moderados um desserviço à República. Esta ideia peregrina de que basta ser um líder político moderado para combater o extremismo, pondo constantemente alguns líderes neste lugar de "semi-vítima" a vislumbrar uma inevitabilidade, é tudo menos eficaz.

Aos líderes políticos moderados pode e deve ser cobrado um desempenho com métricas claras em relação a este combate às ideologias populistas. Pode e deve ser-lhes exigido o mesmo carisma e facilidade de comunicar com as classes mais populares que vemos em líderes populistas.

A luta contra o extremismo é uma missão difícil e, por norma, não pode ser confiada a qualquer sacristão, independentemente das suas boas intenções. Não nos esqueçamos de que, durante anos em Portugal, os nossos partidos "moderados" deixaram o Chega falar sozinho sobre o tema da imigração, remetendo consecutivamente o assunto para questões morais.

Independentemente das opiniões, se os partidos tradicionais decidiram no passado ignorar preocupações e anseios reais das populações, deixaram novos partidos com oceanos azuis de posicionamento. Logo, correm o risco de se tornar partidos de nicho por culpa das anteriores direções, como as de Costa e Rio.

Para além disso, creio que não é propriamente polémico dizer que a esquerda perdeu as classes populares quando deixou de lado as suas lutas clássicas, como os direitos dos trabalhadores e a redistribuição de rendimento, em detrimento de conflitos sociais importados dos EUA. Essas novas bandeiras da esquerda foram "ouro" para a extrema-direita, que foi amparando o eleitorado que se sentia crescentemente deslocado dos novos valores sociais impostos.

Essa transferência de votos enquanto resposta ao wokismo, com a definição académica de "Backlash", já estava bastante bem estudada na época em que esta agenda passou a ser aplicada em Portugal, no primeiro governo da Geringonça.

Acho, sinceramente, que o Chega deve uma condecoração a esta elite académica e intelectual que reduziu a esquerda aos seus anseios de "Petit Bourgeoisie". Sem eles, nada disto teria sido possível.

Em relação ao nosso governo, e apesar de reconhecer coragem política para tentar travar o populismo, não o posso classificar como uma massa homogénea. Enquanto a Ministra da Juventude tenta reduzir a precariedade habitacional para estancar a saída de jovens e o Ministro da Presidência tenta regular minimamente o caos migratório, sacando argumentos à extrema-direita, o nosso Ministério do Trabalho leva a cabo uma agenda de precarização laboral.

E o que é que isso tem a ver com populismo? Tudo.

A precarização do trabalho acentua as desigualdades e a relação entre as múltiplas dimensões da desigualdade e o crescimento da extrema-direita são diretamente proporcionais. Os investigadores Julia Cagé e Thomas Piketty levaram a cabo vários estudos sobre a relação destes dois indicadores, analisando dados de vários países europeus, mostrando a sua proporcionalidade direta. Resumindo, não é complexo entender que isto é atestar de combustível o tanque do Chega.

O caminho do combate ao populismo é um caminho de verdades incómodas que obriga os "moderados" a um exercício de humildade. Não é sobre bons e maus, é sobre aqueles que estão desacreditados porque ficaram para trás.

O combate ao populismo é sobre entender que, se a maioria tem tão pouco, então tem muito pouco a perder. O combate ao populismo é, sobretudo, entender que António José Seguro vai ser Presidente de Portugal e não Rei da Suécia.

 

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