Ok, convenhamos que não estamos no seu período mais eufórico (pós-Guerra Fria). Admitimos, não termos propriamente um Bill Clinton na Casa Branca e que o país mais poderoso do mundo já abandonou a cruzada evangelizadora da democracia liberal.
Mas temos de admitir também um erro de palmatória dos profetas da desgraça europeia, que subestimaram a variedade do seu cardápio. Os toppings são variados. Existe quem a siga na sua faceta mais anglo-saxónica e não intervencionista, outras que a querem mais social e assistencialista e até mesmo existe quem a escolha numa vertente protecionista e conservadora. Tem para todos os gostos, cultura e costumes.
O que é certo é que a plasticidade da democracia liberal é o seu maior instinto de sobrevivência. Devem ser monitorizados com rigor os sinais vitais das democracias, mas devem também ser notados e celebrados os dias em que vencem as mais ardilosas propagandas algorítmicas. Ontem foi um desses dias, pela vitória de Péter Magyar, mas principalmente pela derrota de Viktor Orbán.
Foram 20 anos, 16 deles ininterruptos, mas sempre muito heterogéneos. Aliás, eu diria que a vida política de Orbán é uma montanha-russa ideológica, é efetivamente um autêntico desafiador dos limites da ciência política.
No final da era comunista, Orbán era um jovem rebelde de cabelos compridos. Para além da estética anti-establishment, em 1988 funda o partido Fidesz, que à época se batia por pautas como o liberalismo clássico, o anticomunismo e o secularismo.
O primeiro rebranding do partido deu-se após uma derrota eleitoral em 1994. Após uma pragmática leitura das vontades do eleitorado húngaro, Orbán passa para um centro-direita e um conservadorismo moderado, focando-se num fit identitário mais certeiro, ligado à família e aos valores cristãos.
Passados oito anos na oposição, Orbán aproveita a crise financeira de 2008 para dar mais uma cambalhota no posicionamento do seu partido e chegar ao poder.
Tornou-se paulatinamente um ultranacionalista. Defende agora como missão a rutura com o Ocidente e tornou-se o autointitulado arquiteto da "democracia iliberal", apesar de não ser um conceito da sua autoria. Chegou a elogiar várias vezes países como a Turquia, a Rússia e até mesmo a China. Foi nesta versão 3.0 que se sentou ao lado do Chega em Bruxelas e fundou a família política (os também autoproclamados) Patriotas pela Europa, dotando mais do que nunca de sentido a expressão: "Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és".
O seu "Eu" político camaleónico explica por que esteve tanto tempo na ribalta política. Sob a sua liderança no Fidesz, os militantes do partido já foram: liberais, conservadores moderados, pró-europeus, antieuropeístas, ultranacionalistas, etc. Por aqui podiam continuar. O senhor Orbán pode ser tudo, menos subestimável. Um verdadeiro homem dos sete instrumentos, um autêntico radialista de discos pedidos, alguém que é tudo e que, por isso, não é coisa nenhuma.
No entanto, é no auge da confiança política que se cometem os maiores erros e, com Orbán, não foi exceção. A sua gula para frear os contrapoderes levou-o, no seu último mandato, a sair mais vezes do alinhamento europeu e a passar, cada vez mais, a Hungria para a esfera de influência russa. E foi esse movimento que foi letal e ditou o fim ao reinado de Orbán.
O dia de ontem foi a prova de que o eleitorado europeu em geral, e o húngaro em particular, nunca estiveram zangados com a democracia liberal. No limite, meteram o globalismo em questão, numa resposta impulsiva à imposição de um progressismo bacoco e importado que nada tem a ver com a matriz ideológica europeia. Matriz ideológica europeia que Magyar nunca perdeu de vista.
Ficou a lição aos aspirantes do preço a pagar para quem, no seio da Europa, se propõe a fazer o papel de idiota útil de Trump e Putin. Ficou dada a reação eleitoral às tentações eurocéticas dos partidos. Ficou o rasto de esperança na Europa, mas ficou acima de tudo a lição de que a democracia iliberal é um neologismo para camuflar o autoritarismo de sempre.