segunda-feira, 09 fev. 2026

Brexit: O Elefante de Downing street

Durante o final de 2025 e o início de 2026 temos assistido ao regresso do Brexit ao campo mediático.Do Independent ao The Guardian, do custo de oportunidade anual de 90 mil milhões às sondagens onde a maioria evidencia a vontade de regressar ao bloco. Os gritos de capa têm sido transversais aos media britânicos.

O Brexit tem gradualmente dado lugar ao Breget, naquilo que são os primeiros sintomas de uma ressaca, após quase 10 anos de uma rave soberanista.

Até mesmo o primeiro ministro Keir Starmer, que por conveniência política, evitou o assunto durante toda a eleição de 2024, já pôs o lado B do disco a girar.

Assim sendo, tem realçado nas suas últimas entrevistas o quão nefasto foi o acordo de Brexit para a economia, bem como as suas ambições de fazer um reset às relações com a União Europeia.

Tanto no seu discurso de final de ano como numa entrevista que deu este mês à BBC, Starmer mudou radicalmente o tom que ouvimos na campanha eleitoral. De “Make Brexit Work” passamos para “Let´s fix the deal”.

Esta mudança de tom não é uma coincidência. Está agora mais do que nunca pressionado a aproximar-se do mercado único, dado que o Reino Unido foi o único país do G7 que não recuperou totalmente os níveis de comércio pré-pandemia.

Os Empresários descrevem um caos burocrático para exportar para a UE. Apesar de se terem livrado dos malvados burocratas de Bruxelas, não se conseguiram livrar da burocracia em si, admitindo, assim, ao dia de hoje, “abertura para um regresso a algumas regulamentações europeias”.

Não obstante os inegáveis constrangimentos comerciais, desengane-se quem acha que as cicatrizes do divórcio se resumem à aritmética da balança.

Estrategicamente desalinhado dos BRICS, perante uma América indisponível para o multilateralismo e uma UE que os usa como “exemplo pedagógico” para os estados membros, o Reino Unido ocupa hoje, um não-lugar geopolítico.

Têm assim, amarga e paulatinamente descoberto que no século XXI a “soberania plena” vem geralmente acompanhada pela liberdade de ser ignorado pelos seus pares. Uma situação que ilustra isso claramente é o falhanço das ambições do Reino em se juntar ao fundo de defesa da União Europeia (SAFE). Enfrentam, hoje, uma intransigência por parte dos franceses que afirmam que mesmo que o país seja um contribuinte líquido, não pode ter direito de voto nem de veto.

Macron vai ainda mais longe e pede que, caso os Britânicos entrem no projeto de defesa europeu, se estabeleça um teto percentual aos componentes oriundos do outro lado do Canal da Mancha. Nesta lógica, o presidente francês argumenta que essa medida deve ser aplicada para “reduzir a dependência de fornecedores externos ao bloco”.

É certo que todos achamos dissimulado o caderno de encargos da França e sabemos que as motivações para tais regras são económicas e não políticas. Mas é ainda mais certo de que o velho Império só ocupa este lugar na mesa de negociações porque perdeu o seu assento no conselho europeu, ficando, assim, vulnerável aos devaneios industriais do presidente dos óculos escuros.

Cameron, May, Johnson,Truss e Sunak- um inconsequente e quatro defuntos políticos. Um corridinho que só não faz o nº 10 de Downing Street parecer um airbnb na Lapa porque o gato Larry reside lá de forma permanente.

Apesar de todas estas estadias de curta duração, já lá vai o tempo em que os trabalhistas conseguiam capitalizar com os erros dos conservadores. Na data de hoje Keir Starmer amarga em sondagens que lhe dão 18% das intenções de voto, quase empatando com os modestos Greens.

Tirando Cameron (que viu a avalanche de longe) todos eles se acharam capazes de domar o Elefante. Tal como eles, Nigel Farage não é exceção, e afirma ter o “último grito” das soluções milagrosas sobre o que fazer com o mesmo. Assim sendo, ele insiste na teoria batida de que o elefante não é mau, os tratadores é que são pouco talentosos.

Farage não é um novato, e apesar de estar a frente nas sondagens, sabe que não está livre de ser o próximo nome a figurar no obituário político que o Brexit tem deixado como rasto.

As notícias recentes tornam cada vez mais claro que é um erro olhar para isto como um evento político, tentando entender sua viabilidade tecnocrática. O Brexit não é senão uma expressão identitária provocada por aquilo que sobrou do Império, pelos conflitos internos no Partido Conservador e pelo Lobby (sem o qual nada de verdadeiramente estruturante muda).

O Brexit não é senão um elefante que todos dizem montar, mas que no final das contas, passeia sozinho pela nova Londres, a Londres que agora só fala para si própria.