O ano era 94 e a UE tinha acabado de aprovar o regulamento n.º 2257/94. Este regulamento (feito a pedido dos próprios produtores) pretendia apenas harmonizar os padrões de comércio de importação. Para isso, a lei criava três categorias de bananas: a classe extra (qualidade superior e sem defeitos), a classe I (permitia ligeiros defeitos de forma) e a classe II (para bananas muito curvas).
O que para muitos era apenas mais um regulamento aborrecido, foi ouro para os tabloides britânicos que, na época, viam na publicação de "euromitos" um negócio muito lucrativo. Para produzir essas manchetes, incentivaram os jornalistas correspondentes em Bruxelas a escrever artigos exagerados (praticamente fictícios), de modo a hiperbolizarem as regulações europeias. Escusado será dizer que o caso das bananas foi amplamente proclamado nos jornais, e que divulgaram a falsa informação que a UE queria proibir as bananas curvas, provocando uma celeuma nacional e tornando, rapidamente, esta história a maior bandeira da luta contra os tecnocratas alucinados da rotunda Schuman.
Um dos correspondentes que ajudou a difundir essa e outras fake news foi Boris Johnson, que, anos mais tarde, voltaria a reaquecer esta narrativa das bananas, de modo a fazer o seu reuso durante a campanha a favor do Brexit.
No entanto, a parte mais deliciosa e bizarra desta história está no seu final. Anos após a saída do Reino Unido do bloco, o governo britânico decidiu manter a lei da curvatura das bananas por ser útil às cadeias de abastecimento. Não existiu qualquer ação para a revogar durante o governo de... Boris Johnson.
Este desfecho irónico e esta última personagem são a ilustração de uma campanha puramente performativa. Falamos de bananas, mas facilmente poderíamos estar a falar de fronteiras, do sistema de saúde ou de indicadores macroeconómicos.
No entanto, desengane-se quem acha que a origem de tudo isto tem uma natureza mais sensata, até porque não existiria Brexit sem Boris e não existiria Boris sem Brexit, pelo menos, não com este destaque. O senhor certamente teria as suas qualidades, mas, pela minha análise do seu trajeto político, sinto-me à vontade para excluir a sensatez da lista.
Quem analisa o Brexit, enquanto um evento com motivações geopolíticas, analisa-o pelo prisma errado. O Brexit não é senão a história comum de Cameron e Johnson. A trama começa na escola de Eton, uma escola de elite, onde ambos foram contemporâneos. Boris era popular nos corredores e bastante carismático, Cameron era pacato e estudioso (apesar de existir a lenda de um episódio relacionado com canábis, dias antes dos seus exames finais).
Passado o ensino secundário, ambos ingressam na Universidade de Oxford. Boris continuou igual a si mesmo, carismático, e envolveu-se, desde cedo, nas intrigas da Oxford Union. Para quem não sabe o que é, descrevê-la-ia como um microcosmos da política britânica num registo mais teatral. Foi na Oxford Union que Boris foi notado pela oratória e onde teve a sua primeira derrota política, elegendo-se presidente à segunda tentativa.
Quanto a Cameron, sabemos pouco, era discreto : apenas que foi em Oxford que acabaram por ficar mais próximos, após um ingresso tardio no Bullingdon Club (que à época não era cool). Esta sociedade, que se iniciou como um clube de gastronomia, rapidamente descambou para um grupo de estudantes vestidos de cavaleiros, conhecidos por destruir restaurantes. Basicamente, o bom e velho vandalismo recreativo presente na vida dos universitários um bocado ao redor de todo o mundo.
Findo o percurso universitário, Johnson escolhe o caminho do jornalismo provocador, e foi precisamente na época em que se torna correspondente do jornal The Daily Telegraph que adota um estilo satírico, mas moderadamente europeísta. Já Cameron, surpreendentemente, sai dos bancos da faculdade para o aparelho do partido conservador, onde foi investigador e assessor. Ambos chegaram ao parlamento em 2001, numa leva de novos quadros que tentava refrescar o partido conservador numa era pós-Thatcher, ambos eleitos na região de Oxfordshire.
Na Câmara dos Comuns, Boris foi Boris e Cameron foi Cameron. Sem surpresa, Boris usa a Câmara dos Comuns como palco para a sua excentricidade e Cameron torna-se o príncipe herdeiro do partido conservador.
Anos mais tarde, em 2008, já com Cameron na presidência do partido, Boris candidata-se pelos conservadores à Câmara Municipal de Londres, o que era, à época, visto como uma causa impossível, dado o seu histórico trabalhista. Existe até quem defenda que aquele já era um presente envenenado de Cameron que acabou por sair ao lado, dado que culminou com a vitória de Johnson.
Os seus anos enquanto Mayor de Londres fazem dele o enfant terrible da política britânica. Não raramente, na sua coluna no The Daily Telegraph, começava os textos a elogiar o primeiro-ministro e acabava a dar-lhe uma bicada.
Durante os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, Boris roubou o protagonismo ao primeiro-ministro, que mantinha uma postura institucional e cinzenta, enquanto o seu velho conhecido se pendurava numa tirolesa com bandeiras do Reino Unido. Esse episódio quase que já nos poderia fazer prever o que viria a seguir e o que estava a ser apenas uma disputa por brilho no campo mediático passou para o plano político.
A partir daí, começa uma guerra velada e interna, onde foi preciso arranjar algo para dividir o partido: uma discordância de fundo. Boris usou algo que sabia fazer muito bem: demagogia contra a União Europeia.
Cameron marcou o referendo, essencialmente, por razões domésticas. Cometeu o erro de pessoalizar o referendo como um teste à sua liderança, de modo a encaixotar a sua oposição interna.
Quem acha que foi Farage que despoletou o Brexit é naif. O seu partido, o UKIP, à data do referendo, tinha apenas um deputado eleito. Ao contrário da ala eurocética do partido conservador, o UKIP não tinha condições de fazer pressão política a quem quer que fosse.
Ganha o Leave, sai Cameron, entra Boris na liderança do partido.
Nas suas memórias, Cameron mostrou o seu ressentimento relativamente a Johnson, dizendo que o seu companheiro de trajeto deixou a ambição superar a sua coerência ideológica, alegando que Boris nunca foi um eurocético.
Hoje, sabemos o resultado desta rivalidade de balneário em esteroides, sabemos que não se analisa a política sem entender as dinâmicas internas de um partido. E hoje, sabemos, também, que os meninos de Eton podiam perfeitamente ter-se ficado pela destruição de restaurantes, escusavam era de ter destruído um país inteiro, só para decidir quem mandava na curvatura das bananas.