Seguro na Presidência não vai fazer a vida negra ao Governo. Irá questioná-lo, sugerir alternativas, apoiar as boas soluções e apenas em casos limite .se manifestará contra. O Parlamento perderá força com o mais que provável acordo entre o Governo e o Chega. Os partidos à esquerda do PS gritarão a sua irrelevância. A IL dividir-se-á entre os adoradores do eurodeputado, os verdadeiros libertários e os que apanharão o comboio Governo-Chega. O CDS, intestinamente dividido, limitar-se-á a exercícios parlatórios e a montar e desmontar tendas na floresta, com pequena corte de obedientes generais. O PSD dividir-se-á em três grupos: os verdadeiros sociais-democratas, apoiantes de Seguro, senadores instalados e aconchegados no seu conforto, os que ainda esperam D. Sebastião Passos Coelho e os equidistantes, prontos a alinhar com Ventura.
O País vai passar a ser governado por um triunvirato: Montenegro, Ventura e no vértice, cá em baixo, o Presidente. A história não gosta de triunviratos: do primeiro, Pompeu e Crasso afastaram-se ou foram afastados, para César governar ditatorialmente e ser depois assassinado pelo enteado Bruto. Do segundo, Marco António encantou-se de Cleópatra, guerreou Roma, para depois se suicidar com a amante. Octávio, sobrinho-neto de César, transformou a vingança da morte do tio no mais prolongado e sólido período do império romano. A muleta negra levar-nos-á a admitir que Ventura recusará ser vice-primeiro-ministro de Montenegro, tal como Adolfo recusou ser o vice-chanceler de von Papen e que Seguro, recusando ser Hindenburgo, será cilindrado daqui a cinco anos.
O fator que pode evitar esta deriva chama-se Partido Socialista. Ganhou ânimo com Seguro, aspirando a ser aspirado pela sucção presidencial. Terá de sacudir os restos da extrema-esquerda, navegará pelo centro com pequenos bordos à esquerda e poderá até vir a organizar, com sociais-democratas e liberais uma frente anti Ventura. Ou poderá nada conseguir, se se limitar a ser caudatário do Presidente.
Não falo do Governo por ele não existir desde o início das autárquicas, apesar de o PS lhe ter aberto o bar orçamental. Acumula erros atrás de erros: a equidistância, o temor reverencial a Trump, a claudicante resposta à catástrofe climática, a tentação autopromocional levada ao ridículo por Melo e Amaro e agora rezando de joelhos para que Ventura não alcance os seus 31,2% das legislativas.
No triunvirato, não é difícil reconhecer que Montenegro não tem vocação imperial. Aspirando apenas a uma vidinha confortável, governará sem brilho nem glória, com trânsito aberto por Belém. Timorato, avesso ao risco, estará pronto a ser deglutido por Ventura, demonstrando que quem não é capaz de se sentar à mesa, acabará por figurar no menu, Carney dixit.
O dilema entre prolongar um governo medíocre e moribundo, ou esperar a incerta salvação eleitoral será tremendo. O temporal continuará e Montenegro, como sempre, contando passar por entre os pingos da chuva. Se ele passar, será o resto do País a apanhar com a ventania e as bátegas da intempérie. Para prevenir a traição de Bruto e a guerra suicidária de Marco António, Seguro tem de ser apoiado no vértice do poder.