sexta-feira, 15 mai. 2026

O poder e a tribo

Vela, com todo o zelo por duas riquezas: um juízo e conduta irrepreensíveis e a mansuetude para os que forcejam por erguer-te obstáculos, ou te prejudicarem. Seria prova de fraqueza enfuriares-te contra eles, como o seria renunciar à ação e titubear, tremelicando de medo

Marco Aurélio (121-180DC), imperador romano, Meditações

Exercer bem o poder foi sempre difícil. Vale a pena olhar para algumas características permanentes do seu exercício. Elas explicam muitos dos erros de quem governa.

Os círculos do poder funcionam como tribos e as tribos como rebanhos e exércitos. O rebanho segue passivamente o pastor ou o animal-chefe, obcecado com a procura de erva fresca. Os exércitos seguem sempre o chefe, para o que se criaram ordem unida, marchas, bandeiras, trombetas, tambores e cadências.

Os governos podem ter origens dispersas, mas facilmente se agregam, sobretudo quando os adversários os atacam, despertando-lhe um ignorado espírito de grupo. São raras as dissidências iniciais nos governos. Cada vez mais acreditam no chefe, mesmo sem razão, no seu programa e a mensagem passou a ser missão. Como observamos, os debates no parlamento jamais enfraquecem os governos, reforçam-nos.

O espírito de clã é antagónico do espírito crítico e conduz à miopia e depois à cegueira. Sondagens negativas reforçam o clan, não o enfraquecem. Mesmo os espíritos mais lúcidos soçobram perante o clan. Os inicialmente críticos tornam-se cristãos-novos e aduladores. No regime autoritário os exemplos eram muitos. Na democracia nota-se menos, dada a variedade dos protagonistas, mas estão a aumentar com a degradação cultural trazida pelo ‘trumpismo’.

Quando se desce ao escalão imediato, o da alta administração, os problemas agravam-se, proporcionalmente à limitação e mediocridade das escolhas partidárias. Os governantes que se tentam libertar da pressão do partido são olhados de viés pelo grande clan. As ‘nossas’ escolhas são sempre boas, por definição. Quando incomodados com erros, arbitrariedades e desatinos, são tentados a admitir que se trata de intrigas, invejas ou inexperiência superável. Vão até ao absurdo na defesa das escolhas, como se se tratasse de uma relação de paternidade. Mesmo quando os maus-tratos são de grande dimensão: assédio laboral, ameaças, injúrias e outras formas de coação. A mais comum é a acusação de corrupção sobre os antecessores. Funciona sem provas, basta a difamação. Justifica o varrimento completo de uma estrutura dirigente na instituição.

O saneador convence-se de que foi investido em missão sagrada. Arregimenta capangas que encarrega das tarefas sujas, fugindo ao confronto direto. O agressor frio é sempre covarde, física e moralmente. Difama, ameaça, persegue, afasta, demite e substitui por outros da sua laia. Procura não se comprometer. Estamos perante uma paranoia em progresso para o abismo.

Aqui chegados, pergunta-se: mas como reage o responsável político superior? Como é possível que não veja, não ouça, não interprete a aproximação do risco. Haverá sempre quem o informe, quem se preocupe com o prestígio da instituição, mesmo que apenas por inveja ou vingança. Inerme, aguarda melhores notícias, que tudo passe, não se comove nem se move.

É então que surge o escândalo público, os media excitados, as medidas de controlo do desgaste, atabalhoadas. O responsável político não se pode esconder, já será tarde, acaba por ser ele o culpado de tudo. Se ainda resistir, enche-se de coragem e troca de protagonista. À pressa, com escolhas pouco informadas. Deixou semear ventos, colheu tempestades. Muitas vezes sem acalmia, um novo ciclo começa.

Como em todas as parábolas, qualquer semelhança com a realidade da vida não será mera coincidência. O conselho de Marco Aurélio Antonino é sempre útil.