terça-feira, 21 jul. 2026

O novo dilema do prisioneiro

Deixem-se de ficcionar a objetividade das escolhas. Nomeiem quem lhes der na governamental gana. Talvez assim consigam fazer algo de útil ao país e aos vossos e nossos filhos e netos.

Em pesquisa de órgão insuspeito de orientação de esquerda, ficámos a saber que «o Governo de Montenegro nomeou 26 novos presidentes para presidirem a Unidades Locais de Saúde (ULS) em pouco mais de dois anos de governação». Dois terços desses órgãos que juntaram os cuidados de saúde primários com os hospitalares, em desafio de décadas, foram radicalmente alterados na composição, objetivos, métodos, relações com subordinados e pacientes, idiossincrasias e culturas institucionais. Setenta por cento dos nomeados tinham cartão partidário do PSD ou do CDS. Antigos deputados e presidentes de municípios, candidatos derrotados, antigos vereadores, ex-deputados e funcionários municipais e até simples militantes de base, servem agora como dirigentes de complexas instituições multiprofissionais, pluritecnológicas, de forte caráter inovador, elevado dispêndio financeiro, longa história institucional e exigente responsabilidade social. Os oito restantes não são reconhecidos por fidelidade política ao partido de Governo, sendo quatro deles médicos e outros quatro economistas ou gestores, todos com prévia experiência de administração de hospitais, nomeados pelos anteriores governos. A inefável CRESAP abençoou neófitos e veteranos.

Não estando em causa os méritos absolutos dos nomeados, mas apenas a sua adequação para os cargos, espera-se que todos desempenhem com lealdade e, já agora, com proficiência, as funções que lhes são confiadas. A questão crítica aqui é a estabilidade funcional, ampliada pela substituição completa dos elencos. Com otimismo admitamos que os primeiros seis meses sejam passados a conhecerem hospitais e a visitarem os centros e extensões de saúde, a conversarem com as unidades de saúde familiares sob sua tutela, recolhendo queixas, aqui e ali mudando chefias. Apreender a cultura institucional será mais difícil, só ao fim de anos. E quando começarem a conhecer melhor e a movimentar-se dentro da rede em que foram lançados, mudará o governo, ou mesmo só a ministra, e todo o esforço se esfumará. Novo governo, novos nomeados ou velhos renomeados, acrescentando rancor e raiva à pureza inicial de intenções.

Cada novo governo estará sempre indefeso contra este novo ‘dilema do prisioneiro’: se inaugura uma seleção objetiva de dirigentes será trucidado pelas sempre atentas e vorazes distritais do partido; se nomeia os que lhe recomendam vai perder a capacidade de inovar. Concluindo, o melhor é aceitar o método e nomear os ‘nossos’. Assim se perpetua a mediocridade.

Nos idos da troika criámos a suposta seleção objetiva pela CRESAP. Ficção completa: desde logo se omitiu qualquer limitação às nomeações ‘em regime de substituição’ que de exceção passaram a regra. Depois, a pretensa seleção pelo mecanismo da lista tríplice, ao desembocar sempre na escolha daqueles que o Governo pretende, gera o desinteresse crescente dos de cor diferente, mesmo que melhores, enviesando a seleção. Finalmente, a decisão é demorada, com duplo inconveniente: não entroniza de imediato o ‘escolhido’, criando vazios de poder e perpetua o regime de substituição.

Neste momento, estamos na bagunça completa. A força mais potente, as distritais que elegem o líder e exigem a nomeação dos ‘seus’, indispensável para renovarem o sucesso eleitoral, acabam por determinar as escolhas dos dirigentes de uma administração central cada vez menos desconcentrada. Como sabemos, estão longe de terem um padrão de princípios e valores. E chegamos ao ponto em que os ministros governam cada vez com mais dificuldade: sem liberdade de escolha de dirigentes da alta e média administração, sem cartas de missão que lhes permita exigir metas e objetivos; sem a fidelidade que julgaram suprir a lealdade e a competência; sem forças que acompanhem a dinâmica que desejam. Governar, afinal, não passa de sonho, aqui e ali de embuste.

Em conclusão: deixem-se de ficcionar a objetividade das escolhas. Nomeiem quem lhes der na governamental gana. Talvez assim consigam fazer algo de útil ao país e aos vossos e nossos filhos e netos.