Há 30 anos, Portugal crescia a 3% ao ano. Com os economistas e demógrafos que então me acompanhavam nos trabalhos do Livro Branco da Segurança Social aprendi que para se sustentar esse crescimento o país necessitaria de mais 900 mil trabalhadores imigrantes até final dessa década. A variável migrações era então uma espécie de caixa negra. Sabia-se que os trabalhadores entravam se a economia os atraísse; na competição com economias robustas, ou nos limitávamos a porta de entrada em Schengen, ou nos valíamos da língua e da cultura para reter demanda laboral útil.
O fantasma do envelhecimento, previsível e mensurável, sobrepunha-se sempre. E a obsessão de especialistas permaneceu centrada sobre a deterioração da razão ativos/pensionistas e a sustentabilidade financeira do sistema previdenciário. A única reforma económica digna desse nome foi a criação do automatismo de prolongar a idade da aposentação em função do aumento da esperança de vida. Acompanhada da consideração de toda a carreira contributiva e de várias medidas de prevenção da fraude e manipulação.
Depois, veio o túnel da troika, onde o garrote orçamental impedia o oxigénio governamental de alimentar outro pensamento que não fosse o fanatismo do ‘sofrer para curar’. A anestesia política de nada serviu e no final ficámos todos mais pobres. Menos empresas nacionais de grande dimensão com deslocação de centros de decisão, menos emprego e mais desemprego, fuga maciça de quadros médios para outras paragens, menor consumo, (o que alimentou a retórica do fugaz equilíbrio das contas externas) aposentações assustadas de funcionários experientes, incentivo aos jovens para se deslocalizarem. De muito bom, apenas o impulso do setor exportador: têxtil, calçado, metalomecânica pesada, componentes-auto e alguma eletrónica de precisão, uma silenciosa, outra à espera dos comboios da alta velocidade.
Recuperada a normalidade, a quase inesperada baixa de tarifas aéreas e um Mediterrâneo em chamas geraram o boom do turismo. Os de fora descobriram a nossa comida, paisagens, vinhos e bom acolhimento, de forma tão avassaladora que tivemos de recorrer à doce fala do português do Brasil para os acolher, dada a exiguidade e impreparação da nossa mão-de-obra hoteleira. E assim chegámos aos quase 40% de novos empregos atribuídos ao turismo, à renovação urbana pela abertura do alojamento local (e consequente expulsão dos pobres do centro das cidades) e finalmente aos inesperados e surpreendentes superavits da Segurança Social que nos tornaram, da noite para o dia, ajuizados executantes financeiros. Mãos delicadas de asiáticos colhem os nossos morangos, mirtilos, cerejas e uvas, empresários espanhóis agradecem o bónus da água barata do Alqueva para recordes na produção mundial de azeite. Em alguns núcleos de visigodos ainda nascem e bruxuleiam as luzes do conhecimento e os unicórnios da inovação.
Voltemos à imigração que agora nos surpreende com 1,4 milhões, com o Martim Moniz e a linha vermelha do Metro, os barbeiros e as esteticistas brasileiras, os condutores de Uber e os carregadores da refeiçãozinha ao telefone, transportada com parca gorjeta. Gostaríamos de ter mais imigrantes de alta qualificação e de exportar menos emigrantes treinados a demandarem melhores vidas. Mas nada fizemos para o conseguir. Não desenvolvemos suficientes empresas de capital de risco para incentivar a inovação, concentrámo-nos no que sabíamos fazer sem pensar que outros o viriam a fazer a menor custo, o Estado deixou de investir na sua modernização, criámos mais enleios e devaneios burocráticos e deixámos os interessados captores vingarem, com a mesma força dos jacintos de água nos rios interiores, tudo secando, tudo paralisando. Governo que mexe, não dura, ministro que reforma é maltratado e despedido, inovação que revolucione desgasta-se em cinco anos.
Começa finalmente a entender-se que a imigração é uma consequência da nossa anoxia; não uma causa, muito menos de insegurança, mas uma variável de longa duração que nos deve forçar ao seu conhecimento. Jamais uma fatalidade. Algumas vozes avisadas, Pedro Norton, Susana Peralta, Paes Mamede, Pedro Santa-Clara, António Nogueira Leite e outros, têm vindo a esforçar-se por afastar fantasmas e mergulhar-nos a cabeça na economia. Tudo desta depende. Para reequilibrar o crescimento teremos de reequilibrar o país com políticas económicas e sociais bem estudadas, planeadas e despidas de preconceitos e de vinganças, sem mais improvisos infantis. Não está a ser fácil.