segunda-feira, 14 set. 2026

Infestantes invasores e narcisos malignos. Uma crónica de verão

Complexo de superioridade e comportamento hostil, o narcisista maligno torna-se insensível, desprezando relação ou vínculo aos outros, sendo incapaz de aceitar ou tolerar qualquer crítica.

O pequeno ribeiro que passa na minha aldeia está infestado de plantas invasoras de rápida multiplicação. O poder local corta-lhes as folhas quando elas sobem acima da altura das margens. Recrudescem com mais força. O ribeiro perdeu o leito, apesar do forte inverno a água desapareceu, a levada onde aprendi a esbracejar sumiu-se, coberta por um manto verde. Na minha ignorância hidráulica, admito que só com tratores raspado fundo e eliminando raízes será possível lutar contra o flagelo, a menos que se descubra um agente biológico que os destrua, sempre com riscos de destruir o que não deva. Li algures que havia milhões para limpar estes rios e se iria começar pelo Norte. Ainda não chegaram às Beiras.

Pior que a planta invasora dos rios é o narciso. Bem sabemos como os maus exemplos, sobretudo os de além Atlântico tendem a ser copiados pelos europeus. Quanto menos cultos, mais medíocres e arrogantes são os nossos narcisos. Os que sofrem de narcisismo maligno são os piores. Misturam o narcisismo inofensivo com comportamento antissocial, agressão e sadismo. Complexo de superioridade e comportamento hostil, o narcisista maligno torna-se insensível, desprezando relação ou vínculo aos outros, sendo incapaz de aceitar ou tolerar qualquer crítica. Passam muito tempo em como alcançar poder ou sucesso, aproveitando-se das pessoas à sua volta, manipulando-as. Podem aproximar-se e até insinuar-se nas vítimas, mas mordem com agressividade. São arrogantes para disfarçar a perda de autoconfiança, pensando sempre em si, ignorando o que os rodeia. Quando assumem o poder, tornam-se vingativos e arbitrários. O mundo está cheio deles. Acabam por ser diagnosticados e neutralizados. Até lá, espalham sofrimento e destruição.

Nada disto é grave até à ascensão ao poder, a qualquer poder. Escondidos pela excecionalidade, aproximam-se melifluamente dos influentes e logram atingir posições de relevo nas empresas, na universidade, na administração públicas. As duas primeiras dispõem de filtros de seleção, a última perdeu-os de há muito, substituindo-os pelo amiguismo, nepotismo e apadrinhamento partidário ou outro. Quanto mais fraco for o governo, mais hipóteses têm os narcisos, mais agressivos se tornam. Quanto mais numerosos forem os lugares dirigentes mais vulnerável a instituição. Dir-me-ão: mas os ministros não têm poder? O primeiro dos ministros não define regras e recomendações para prevenir o acesso de narcisos malignos? mas como, se os governos forem fracos e feridos de desconfiança popular desde o início?

As regras criadas para suposta escolha plural estão distorcidas, enredando-se numa suposta seleção objetiva por júri independente, os mandatos são longos, os bons candidatos escasseiam e não há notação decente pelo desempenho. Quando um narciso maligno conquista um lugar importante, pretende virar a instituição do avesso. Todos os pretextos são bons para infundir o terror, armado em justiceiro. Distraídos, os governos só depois de vários meses dão conta da péssima escolha. Quando pretendem estancar o erro, hesitam sempre: falta de coragem, receio de dar trunfos às oposições, custo da indemnização compensatória, proximidade de remodelação que os atinja, ou mesmo a incerteza na escolha de melhor substituto. Tudo concorre para a não decisão. Só se notará depois da saída, ou da queda do governo todo, com fragor. Até lá, para quê incomodarem-se?

Tal como na limpeza dos ribeiros do interior, a solução é sempre dispendiosa e tardia. Como as fotografias da invasão de infestantes tardam a chegar a quem decide, os malefícios dos narcisos malignos, só quando gritantes, preocupam os governos.