Hic et nunc

Face ao poderoso, imprevisível e inaceitável novo adversário e aos riscos que lhe andam associados, estarei ao lado de Seguro e concito todos os que me conhecem, a fazê-lo.

Aqui e agora. Declaração de interesses: fui apoiante de Gouveia e Melo por o considerar o candidato mais bem preparado em capacidade, conhecimento e independência, para servir o país na PR nos próximos cinco anos. Fico-lhe grato por mais um serviço público prestado. Os eleitores preferiram um camarada do meu partido, Seguro, sem gerar o meu entusiasmo. Reconheço-lhe qualidades, sobretudo na condução defensiva e eficaz da campanha, que o levaram à vitória. Face ao poderoso, imprevisível e inaceitável novo adversário e aos riscos que lhe andam associados, estarei ao lado de Seguro e concito todos os que me conhecem, a fazê-lo.

O líder do partido de maior representação parlamentar e primeiro-ministro, reconheceu a derrota do candidato que intensiva e extensamente havia apoiado. Como Pilatos, lavou as mãos diante do povo, declarando com sorriso mordaz, que ficava agora equidistante entre a "esquerda" de Seguro e a "direita" de Ventura. Nem uma nem outra existem: a "esquerda" de Seguro vai dos frangalhos da antiga extrema-esquerda, 4 a 5% de votos, até uma parte importante do PSD e algumas franjas simpáticas do IL, passando pelo que resta do meu Partido que não é coisa pouca. A "direita" de Ventura não é direita, mas sim uma amálgama de restos de saudosistas do salazarismo, trânsfugas do PSD em busca de protagonismo negado, esquecidos sociais, antigos eleitores comunistas e bloquistas desiludidos, os inevitáveis marginais para servirem, por expulsão, a moralidade do líder, certamente a par de muito e bom povo, à espera de dias melhores. Aqui e ali, alguns intelectuais orgânicos de qualidade. Pairando acima de todos, o cabeça de cartaz, ator consumado para todos os cenários, desde o insultuoso ao cândido, do carrasco de primeiros-ministros ao cristão que convoca os media para a missa das sete, do gerador de ódio ao fisicamente frágil, do anticonstitucional no início da semana ao obediente defensor do estado de direito nos dias posteriores. Um verdadeiro catálogo de personagens. Reconheço a diferença: Henry Fonda levou duas décadas a transmutar-se de advogado idealista em Doze Homens em Fúria, no cínico assassino contratado de Aconteceu no Oeste. Ventura mostrou ser capaz da migração em apenas uma semana.

Pois é desta extrema-direita informe que Montenegro deseja estar equidistante. Esperando que a vida política seja sempre a mesma, antes e depois das presidenciais. Que pode aprovar com os votos do Chega, sem rumor, sobressalto e indignação, as propostas de nova lei laboral, a passagem dos recursos da Segurança Social para fundos de seguros, o desmantelamento progressivo do SNS, "resolver" a crise da habitação, como se fazia no tempo de Salazar, oferecendo madeira, cimento e chapas de zinco, aos desgraçados na periferia dos concelhos de maior pressão. 

A segunda volta não vai ser um passeio pelo parque, o ator-Ventura não o permite. Montenegro e, ao que parece, o cerne editorial do Observador, entre outros personagens, vão ter de se explicar, escolhendo para que lado da ribeira saltarão para se manterem de pés enxutos. Vozes amigas estão já a tentar demonstrar-lhe que não serão necessárias muitas declarações diretas, bastando fazer engrossar o lote de apoiantes seus que optaram já por Seguro. Só por miopia política pode haver hesitações: Ventura com 40% será no dia seguinte o dono da direita. Ventura com 25% será um epifenómeno.