Nada ultrapassa a voracidade mediática sobre o SNS. Nem as guerras da Ucrânia e do Golfo, nem a triste figura da nossa Seleção, nem a falta de água em Almada, nem o barracão, algures, onde repousam as provas escolares. Quando não são factos presentes, como mais uma tardia chegada de ambulância a que se associa um óbito, serão factos futuros e incertos, como os riscos da falta de médicos e enfermeiros nas férias de verão. O SNS é a vítima preferida, toca em todos.
É inegável o efeito depressor destas acusações, em pessimismos e interpretações para todos os gostos: os ideólogos do neoliberalismo sentem-se cheios de razão, sempre preferiram a saúde prestada por privados, convencionados, paga pela segurança social, aos sistemas universais, pagos por impostos; os ideólogos do coletivismo agarram-se à última lei de bases, preferindo uma saúde totalmente paga e prestada pelo Estado; os mais astutos não querem o desaparecimento do SNS para que os privados, generosamente desregulados, possam predá-lo na sua incompetência administrativa, sabendo que os casos de doença difícil e cara para lá serão despachados, ao abrigo do artigo 64º da Constituição; os que chegam ao governo, percebem que o SNS não pode desaparecer, porque é altamente popular, servindo três quartos da população que não tem outro local onde ir, se o destruíssem perdiam as eleições seguintes e sobretudo o emprego das suas clientelas; temos ainda os que desenham reformas orgânicas com ambiciosas intenções, medidas positivas, mas apressadas e improvisadas, esperando que homens providenciais alcancem o milagre de salvar o SNS, num único e fulgurante mandato.
E finalmente temos a modéstia realista dos que sabem que grandes reformas se fazem na margem, aos poucos, sem romper o tecido, sem ofender os profissionais, melhorando o sistema com pequenos passos de eficiência, formação permanente e avaliação transparente e constante. Sabem também que parecendo brandos, são impopulares: não recorrem ao partidarismo na escolha dos gestores, exigem mais autonomia das Finanças, delegam mais responsabilidades nos níveis regional e institucional e exigem boas contas, proximidade no serviço e qualidade no desempenho. Pertencem naturalmente a uma espécie em extinção. Desmoralizam a cada novo governo, sabendo que o seguinte será quase sempre pior, abandonam o SNS se puderem, resmungam pelas esquinas mediáticas, à espera de uma genial equipa dirigente que levante a moral do SNS, ou ao menos não a deixe cair mais.
E, todavia, estes novos galileus persistem na sua evidência científica: 85% dos cidadãos têm médico de família e três quartos deles estão inscritos em USF-B onde são atendidos com qualidade, sem esperas nem multidões, referidos com surpreendentemente rapidez para cuidados mais complexos ou especializados. Se uma doença catastrófica se abater sobre eles serão sempre bem cuidados pelo SNS, nos serviços onde encontrarão os que esgotaram o seguro ou foram para aí despachados por se terem tornado não-rentáveis.
E tudo isto se consegue mesmo pagando parte do ozempic a quem não é diabético, mas gostaria de emagrecer, a totalidade dos medicamentos e tratamentos oncológicos e, de forma completa, os medicamentos e apoios aos portadores de VIH, e até uma cama de convalescença, algures, mantendo intocável a pensãozinha. Sem as amenidades dos privados e o sorriso gentil e plástico de belas rececionistas. Ao nosso lado, na espera, poderemos encontrar uma família africana, sul-americana, do Industão, ou simplesmente portugueses de etnia cigana, mães vocalmente reivindicativas com crianças irrequietas e barulhentas, tal como os nossos emigrantes quando chegavam a França. Todos iguais a nós, no acesso ao SNS e no tratamento. Ter passado do título e apelido a ser apenas o Sr. António, em nada me diminui. Pelo contrário: quando comecei a minha carreira na saúde no final dos anos sessenta, o nome de família era critério de urgência, hoje não, felizmente.
Aos amigos que receiam a destruição lenta do SNS recomendo que sosseguem, mesmo os seus encarniçados adversários sabem que não o podem substituir por um regime convencionado, o Estado pagaria duas vezes, dois sistemas. E como, no final seriam os eleitores a pagá-lo, a carteira ou o cartão bancário estão sempre perto do coração. Os eleitores podem ser enganados por vezes, mas em quatro anos aprendem sempre.