Os comentadores de tudo costumam queixar-se da nossa administração pública. Volumosa, burocrática, cartorial, pouco imaginativa, ineficaz e ineficiente. Os atrasos na decisão necessária e urgente, os erros inimputáveis, a escala hierárquica infindável, a fuga à decisão, o prolongado encerramento ao público inaugurado com a pandemia, os episódios de maus-tratos ao contribuinte, o seu elevado custo para a macroeconomia, geram aqui e ali episódios que pretendem passar da evidência anedótica à verdade científica.
Os casos negativos recolhem desproporcionada repercussão quando comparados com os episódios geradores de satisfação. Administração muito menos estudada do que devia, conhecimento em insularidade académica, inovação que em regra é mais imposta que proposta e um desrespeito absoluto pela cultura própria de cada instituição. Os ministros com ímpeto reformista, em geral vêm de fora, do privado, recheados de preconceitos, iluminados ou até estrangeirados, juntando a uma confrangedora ignorância da história o complexo de Marquês de Pombal, convencidos de que, em um mandato parlamentar, tudo se resolve com a energia e o apoio irrecusável do Sr. primeiro-ministro.
O caso recente dos exames de acesso ao ensino superior transporta o paroxismo de vermos um excelente académico a culpabilizar tudo e todos ao menor sinal negativo na digitalização de textos dificilmente digitalizáveis, consumindo uma máquina administrativa provavelmente mais dispendiosa que a anterior, apenas com a esperada vantagem de gerar mais informação comparada. O caso da Administração Interna, diferente, vai grelhar um excelente quadro policial no lume ardente de um verão abrasador, quando tão necessária é a sua elevada capacidade de comando e de gestão de homens nos incêndios rurais que nos ameaçam. O caso do INEM e da rejeição que a nova direção encontrou nos quadros internos, releva de omissão pelo estudo da cultura da instituição que como todas as culturas não se substitui pela ameaça ou violência; vamos assistir à imolação de um quadro que vinha dourado do prestígio insular em escala de dimensão incomparavelmente menor. Nos hospitais, onde a cultura é mais forte, mas maltratada desde há vários anos por substituições partidárias desconhecedoras do contexto, da cultura e até da história da instituição, os erros repartem-se entre organismos de tutela que demoram meses a aprovar planos de ação, já o ano vai avançado e dirigentes que levam pelo menos metade do mandato a conhecer a unidade que dirigem – se é que alguma vez chegarão a visitar todas as instalações - e outra metade a criarem uma estratégia.
Esta sina má nem sempre existiu. Fraústo da Silva e uma plêiade de ilustres colaboradores (Roberto Carneiro, Rui Machete, Figueiredo Lopes, Marcelo Rebelo de Sousa) construíram o INA como serviço exemplar de formação dos quadros do Estado. Os sucessivos e prestigiados dirigentes dos serviços de meteorologia colocaram Portugal no panorama internacional dessa ciência. José Mariano Gago, antes de ser o ministro da ciência, foi um notável presidente do organismo gestor da investigação (JNICT). Paulo Macedo, na primeira década do século, deu a volta completa à Autoridade Tributária sem violência escusada e até com o entusiasmo do seu pessoal. Entre muitos dirigentes hospitalares, António Ferreira, Adalberto Campos Fernandes, Teresa Sustelo, Rosa Matos, Rui Lourenço, Fernando Regateiro, Francisco Ramos, Fernando Araújo, alguns deles posteriores governantes, transformaram unidades de saúde envelhecidas e desmoralizadas em expoentes de eficiência e qualidade. À escala regional, a CCDR do Norte, dirigida por Valente de Oliveira e depois por Luís Braga da Cruz e outros ilustres dirigentes, constituiu uma admirável escola de planeamento e administração pública da qual saíram ministros, autarcas, diretores-gerais e dirigentes de empresas. Poucos deles seriam inscritos no partido então no poder e alguns militaram até nas oposições anteriores ou posteriores.
Não pretendo o saudosismo, apenas o bom exemplo. Os governos devem parar para pensar quem devem escolher para os cargos dirigentes da alta administração. Antigos deputados sem colocação, autarcas derrotados em eleições ou simples militantes de cartão, colarinho aberto e calça afiambrada, mesmo que simpáticos e afáveis, não garantem vir a merecer as honras dos predecessores. E então aqueles que entram de botas ferradas a demitir e insultar tudo e todos, sobreviverão como os déspotas: receosos da própria sombra, sempre à espera de melhor posta, vão-se rodeando de uma paliçada de apaniguados. Contratam gestores de imagem e envenenadores da media, gerando lama para que os críticos escorreguem. Vão assim ocupando o tempo e gastando os dinheiros públicos. Ignoram a utilidade da cultura institucional.