Acordo pelas sete com a campainha da senhora que traz o pão. Meia hora depois passa a carrinha do transporte escolar para recolher as quatro crianças do lugar: duas colombianas, uma brasileira e uma nacional. Pelas onze chega a pequena van com as senhoras do apoio domiciliário e ao meio-dia a carrinha do lar com a alimentação dos assistidos em casa. O Estado social chegou em força às aldeias.
Comecemos por tudo o que mudou em meio século. Estradas de macadame e calçadas estreitas, água em fontanários, animais a dormirem debaixo das casas, doenças transmissíveis e alta mortalidade infantil. Agricultura de subsistência, meia dúzia de artesãos (latoeiro, carpinteiro, ferreiro, caiador, pintor, barbeiro e sapateiro) a fundição de estanho encerrada e o fabricante de peneiras suicidado pelo álcool. Meia dúzia de tabernas, uma oficina de bicicletas e meia dúzia de lavradores com juntas de bois, o trator da época. Os que chegavam ao ensino secundário encontravam emprego na cidade, contínuos, serventes do hospital, bilheteiros do transporte coletivo, jardineiros municipais. Os mais instruídos, com sorte entravam na banca, nas Finanças ou em empregos na administração e no comércio. Iam e vinham de comboio, cuidando da horta e da vinha, no regresso a casa e nos fins-de-semana. Encerrada a fábrica de serração e moagem, os homens emigraram para França e Alemanha.
Regresso, agora, à minha aldeia encostada ao Caramulo. Caminhos alargados e transformados em estradas asfaltadas, energia elétrica, distribuição de água e saneamento ao domicílio, TV por cabo por toda a parte, aquecimento, frigorífico, televisões e demais eletrodomésticos que a globalização tornou acessíveis. Aqui e ali ainda um fogão de lenha. O transporte municipal substituiu o comboio, percorrendo mais lugarejos, embora lento. Cada família dispõe de dois ou mais automóveis, de segunda mão e envelhecidos, mas operacionais. Emigrantes regressados reconstruiram velhas casas ou preencheram a urbe com edificações de gosto variável. Os que trabalham na cidade dão uso secundário às que herdaram na aldeia, regressando em força em férias. No meio da semana, o silêncio e a conversa das velhotas ao sol. As crianças foram desaparecendo, substituídas por idosos internados em lares, dependentes do centro de dia ou do apoio domiciliário. As tascas foram substituídas por cafés, as mercearias pelo minimercado, a farmácia prosperou, no mesmo local.
O que continua a mudar, agora? Em poucos anos, a freguesia acolheu mais de trinta famílias estrangeiras, sobretudo brasileiras, colombianas e africanas. Pacíficos, simpáticos, levantam-se cedo para trabalharem na cidade. Ainda não se misturam com os locais, apenas com vizinhos e colegas de trabalho. Arrendaram velhas casas que pouco a pouco tornaram habitáveis. Rendas inicialmente baixas, andam hoje pelos 400 a 500 euros, a 12 km da cidade.
Não chegaram só estrangeiros. Também nómadas digitais, artistas plásticos, professores liceais e universitários reformados, típica classe média alta. Contei sete doutorados residentes, ou que aqui regressam nas férias. Há dias veio ter comigo o filho de um antigo membro do governo, personalidade cuja memória muito respeito. A esposa tinha raízes na freguesia, adquiriram e recuperado uma velha casa de granito e convidavam-me a visitá-los.
Os santos padroeiros são agora pretexto para encontros não apenas de gerações, mas de percursos de vidas diferentes, de classes sociais e de nacionalidades. Na união de três freguesias surgiram associações e clubes de educação musical, de convívio e naturalmente de música pop e gastronomia, animados por jovens adultos plenos de vigor e iniciativa.
Este relato é incompleto e emocional, reconheço. Serve apenas para lembrar aos citadinos que me leem que, fora da nossa bolha, o mundo mudou e continua a mudar.