quarta-feira, 09 set. 2026

Viver, sim, é preciso

Onde estão eles, pois, aqueles que, quando jovens, meios loucos, deram tudo para melhorar a vida de todos? Onde estão os seus cérebros e o que pensam eles hoje?

Que pode ainda unir-nos numa vontade coletiva, dirigida não a beneficiar-nos — a nós e à prole — mas a mudar o mundo, o mundo todo e de todos?

Há momentos assim.

Uma pessoa acorda, olha em redor e parece que nada a motiva a continuar a rotina que um dia abraçou.

Rotina, a que chamamos vida, a vida que levamos e que, de repente, parece ter deixado de fazer sentido.

Descobrimos, então, que não sabemos já bem a quem ela serve.

No mundo atual – constatamos então – pouco espaço resta, ainda, para os outros; aqueles a quem a vida que levamos deveria realmente beneficiar.

Sabemos que a vida tem um propósito mais vasto, mas ignoramos cada vez mais o rosto, próximo ou distante, dos que justificam o nosso esforço quotidiano.

No final da procura que iniciámos, acabamos por descobrir-nos apenas a nós mesmos, sozinhos e ensimesmados.

Ponderamos, então, se valeu a pena esse esforço.

Mas não obtemos, igualmente, uma resposta simples e clara.

Sobreviver não basta, pensamos: viver, sim, é preciso!

E, assim, reinventando-nos, invertemos os termos do que disseram Plutarco, Pompeu e Pessoa.

Recapitulamos e procuramos identificar aqueles que mais de perto nos rodeiam.

Quais deles precisam realmente da nossa atividade diária: da vida que levamos?

Se eles de nós não necessitassem, que poderíamos fazer dela: da nossa vida?

Que outros rumos tomaríamos?

Terá algum sentido o que fazemos, não fosse o apoio que lhes damos?

Ou somos nós que imaginamos tal necessidade para justificarmos o rame-rame em que caímos.

Qual a compensação que recebemos?

Um sorriso, um beijo, um braço forte que, no final, nos apoia e impede de cair?

E, se, depois do nosso esforço, mesmo esse grupo restrito – que não é senão um prolongamento de nós mesmos – considera que apenas fizemos o nosso dever para com os que o integram e, portanto, para connosco.

Onde está a piscadela de olho cúmplice dos que, durante anos, trabalharam ao nosso lado e que, quando os olhávamos exaustos, com tal gesto, tornavam o que fazíamos parte de um objetivo heroico que nos transcendia e que, admitíamos, beneficiava o bem comum?

Há, ainda, no que fazemos, algo que se dirija ao homem, àquele homem que encontramos, dia após dia, no comboio que tomamos para ir trabalhar e a quem nunca falámos?

Será aí nessa cara anónima, nessa vida anónima, que ainda descobrimos o fito do que sempre fizemos e fazemos?

Receberá ele a justa parte que lhe cabe do esforço que repetimos, cada vez mais mecanicamente, todos os dias?

Quem, por fim, beneficiou do que construímos?

Terão sido os nossos vizinhos, aqueles que vivem para lá do Marão?

Para onde vai, afinal, esse resto de ânimo que nos move e que, durante anos, acreditámos que se incorporava justamente num impulso coletivo e jovial e capaz, por isso, de nos devolver uma esperança de pertença a algo que nos é superior?

Talvez, se começássemos de novo a cumprimentar o vizinho, o imigrante que se cruza connosco no passeio, o empregado que nos atende num balcão de loja ou o mecânico da oficina, nos libertássemos da rede com que nos cercam, nos prendem e nos isolam uns dos outros.

Que pode ainda unir-nos numa vontade coletiva, dirigida não somente a beneficiar-nos – a nós e à prole – mas a mudar o mundo, o mundo todo e de todos?

Dizia o poema de Allen Ginsberg: Eu vi os melhores cérebros da minha geração destruídos pela loucura, famintos, histéricos, nus…

Onde estão eles, pois, aqueles que, quando jovens, meio loucos, deram tudo para melhorar a vida de todos?

Onde estão os seus cérebros e o que pensam eles hoje?

Para quê e para quem trabalham?