quarta-feira, 22 jul. 2026

Por enquanto, o povo unido ainda não foi vencido

Junto, com contentamento e alguma nostalgia, um ou outro livro de poesia que considero apropriado ler num qualquer sítio para onde me retire e onde o meio envolvente convide mais à fruição da música das palavras do que ao seu estudo e exegese.

Com a aproximação de julho, chegou o momento de começar a reunir livros para ler durante o verão.A sua escolha costuma ser ambiciosa e, reunindo um número improvável de volumes de diferentes estilos e géneros de escrita, permito-me, depois, durante esse tempo, não me preocupar com o que, afinal, sempre falta.

Os critérios que presidem à eleição das leituras são, pois, variados.

Numa primeira seleção, procuro os livros que falam de temas que comecei a estudar e que pretendo aprofundar: quase sempre estes ficam intocados e arrumados no fundo das malas.

Seguidamente, junto, com contentamento e alguma nostalgia, um ou outro livro de poesia, que considero apropriado ler, num qualquer sítio para onde me retire e onde o meio envolvente convide mais à fruição da música das palavras do que ao seu estudo e exegese.

Por o destino ser o Algarve e o local onde me vou instalar fica já longe das “massas” de veraneantes em busca de praia e água quente, a escolha comporta, por norma, um qualquer livro da Sophia de Mello Breyner.

Desde adolescente que a poesia de Sophia me convida a maravilhar-me com a luz crua, o mar e os cheiros deste, e os da terra e das árvores de fruta; cheiros que ela tão bem sabia combinar, inventando para mim, que ali vivia, um outro Algarve e que sem a sua intermediação poética dificilmente conseguia vislumbrar.

Depois vão, ainda, um ou dois romances marcantes.

Este ano, a escolha recaiu em A Geografia dos Dias, um romance recentemente editado, da autoria de Henrique Vaz Duarte, cujo título me atraiu, a capa pintada por ele alicia, e a prosa demorada, mesmo que, como aconteceu, lida num relance e de viés, me reconduziu imediatamente a tempos, respirações e costumes diferentes.

Com o pretexto da ida à praia, levo, além dos outros, dois ou três policiais de autores que já conheço e que, também, eles combinam bem com a jornada marítima e as noites longas e mornas da serra algarvia.

À cabeça, abraço logo um livro de Camilleri, cujo vagar da escrita, a cor dos cenários sicilianos e os sabores e cheiros, que o autor traduz do siciliano para italiano, competem bem com os do sítio que encontrei para a sua leitura despreocupada. 

Excecionalmente, dado eu mesmo ter publicado, há semanas, uma novela policial, de seu nome O Homem do Café da Praia, transportarei ainda, desta vez, mais uns cinco ou seis exemplares do mesmo livro com que pretendo presentear alguns amigos de liceu, em tempos, meus antagonistas durante a Revolução.

Para concluir, tirei ainda do monte onde se escondia um livro de crónicas de Manuel Vázquez Montalbán, com um nome provocatório: Por enquanto, o Povo Unido ainda não foi vencido.

Assim seja. Assim será!