1.Confesso: desta vez estou solidário com a estupefação indignada do primeiro-ministro (PM).
Vi-o e ouvi-o, na televisão, perplexo, depois de informado acerca de um alegado plano de ataque terrorista contra ele e sua família, notícia essa que lhe foi divulgada em primeira mão, não pelas autoridades competentes, mas pelos órgãos de comunicação social.
Como foi possível chegar até à prolação, pelo Ministério Público (MP), de uma acusação, relatando a atividade de uma organização da direita radical que, alegadamente, estaria a preparar um conjunto de atentados, sem que, antes, o PM tivesse sido alertado para o risco que ele e a família corriam?
2. Bem ou mal, fui elaborando hipóteses possíveis.
Primeira: Devido à atuação dos órgãos de polícia criminal, o perigo real de que um atentado acontecesse desaparecera já, não valendo a pena perturbar o PM com tal notícia.
Segunda: nem os investigadores policiais, nem as autoridades judiciais acreditaram, verdadeiramente, na plausibilidade da atuação de tal organização terrorista e no seu intuito de cometer, entre outros, contra o primeiro-ministro, um qualquer atentado.
Mas, se assim foi, como justificar uma acusação que, ao que dizem, se espraia por mais de seis centenas de páginas?
Terceira: tanto o PGR, como o ex-diretor da PJ – agora MAI – são pessoas da confiança do primeiro-ministro, tendo o último sido nomeado recentemente ministro da Administração interna.
Logo, o sucedido não pode ter resultado de qualquer propósito malévolo das ‘tradicionais forças de bloqueio’ e, estou seguro, dada a reconhecida capacidade profissional de ambos, está, igualmente, afastada a hipótese de negligência da parte de qualquer deles.
Quarta: terá tal falta de comunicação resultado de uma prática, agora mais cuidadosa, do – sempre sacrificado – segredo de Justiça?
O cumprimento de tal cautela e exigência processual (na fase de investigação) não deveriam impedir, ainda sim, o reforço de segurança do PM e família. Nem era igualmente necessário, para tanto, pôr o PM a par de todas as circunstâncias da investigação para o alertar para o perigo que ele e a família corriam.
Nada nem ninguém poderão, pois, saber melhor do que aqueles dois responsáveis institucionais – o MAI e o PGR – a que se deveu tal blackout informativo, relativamente às intenções criminosas de tal milícia armada da extrema-direita.
Até ao momento em que escrevo estas linhas, não lhes ouvi, contudo, nenhuma explicação pública razoável para o sucedido.
E ela urge!
3. A intervenção indulgente do comandante supremo da PSP, relativamente à conduta de um elemento dessa força policial, que foi condenado em juízo por, no decurso de uma ação policial, ter morto sem real justificação – digamos assim – um cidadão, só não me espanta por já estar imune em a tal tipo de intervenções descabidas: ouvi, reparo agora, demasiadas vezes o Presidente Trump.
Acontece que vivemos num país em que tal tipo de declarações públicas costuma ser filtrado, para não confundir a posição institucional do Estado português com o que, pessoalmente, pensam os que o representam.
Sendo que, assim, não fico nada descansado com o que pensa pessoalmente o responsável máximo pela PSP.
4. Que sucederá agora?
Vamos todos esquecer o que não foi reportado, em tempo, ao PM e o que, descabidamente, foi dito pelo comandante da PSP?
Note-se – para o nosso descontentamento neste Verão – que, num e noutro caso, terão estado envolvidos agentes policiais.
Como referi, já poucas coisas me espantam, mas ainda assim…!