Uma das características da vida política atual é o facto de a mentira prevalecer, demasiadas vezes, sobre a verdade. Longe vão os tempos ingénuos em que se admitia que a internet e as redes sociais iriam revolucionar a relação do poder e dos cidadãos com a verdade.
Pensava-se, então, que passaria a ser mais fácil rebater as imposturas propagadas para esconder os erros, a incompetência e mesmo os crimes dos que devendo governar em nome do povo, acabam, com alguma frequência, por o fazer contra ele.
A mentira, mesmo com o aparecimento de vários ‘polígrafos’, foi-se afirmando mais eficientemente, cobrindo com rapidez e alguma imaginação as verdades que, ainda assim, os meios de comunicação social tradicionais - eles próprios já muito manipulados - conseguem, melhor ou pior, ir revelando.
Ter a coragem de ir contra a mentira e contra quem a difunde é, hoje em dia, não só louvável como arriscado e quase heroico.
Os recentes vitupérios que o Presidente Trump dirigiu contra o Papa Leão XIV, e que o obrigaram a responder-lhe que não lhe metia medo, constituem apenas um dos episódios mais ilustrativos de como reagem, ou podem reagir, os poderosos quando são confrontados com a verdade incómoda, dita por quem tem autoridade e a obrigação moral de o fazer e não tem medo ou hesita em fazê-lo.
O que neste confronto espanta não são já, todavia, as atitudes delirantes do presidente Trump, mas o silêncio comprometido e receoso dos que, a propósito de outros assuntos, argumentam sempre ‘com o credo na boca’.
Tal silêncio, seja o dos fiéis e ministros da Igreja Católica, seja o dos governantes dos países em que esta representa uma parte significativa dos cidadãos, revela, mais do que esconde, a efetiva conivência que muitos têm com os crimes denunciados pelo Papa.
Os judeus criticaram, e com razão, aqueles responsáveis da Igreja Católica e o Papa que, na altura, ante o genocídio que Hitler ordenou e fez executar contra eles, se calaram vergonhosamente.
Hoje, porém, quando, contornando o ‘muro do silêncio’ imposto pela maior potência militar mundial, são feitas e publicitadas críticas dirigidas aos governantes dos EUA e de Israel, por agirem de forma igualmente cruel, poucos são os que, no Ocidente, se solidarizam com elas.
O facto de o atual Papa o ter feito coloca, pois, os governantes europeus ante o dilema de ou o desmentirem ou de contradizerem as repetidas e delirantes afirmações de Trump e do seu aliado - o ‘apóstolo da morte’ - que atualmente governa Israel.
Como reagirão?
A verdade, como a mentira, sempre foram instrumentos de guerra. Nunca, como hoje, elas ganharam, contudo, tamanha relevância estratégica no confronto entre blocos político-económicos que se digladiam, não já por motivos ideológicos, mas, declaradamente, tendo em vista apenas obter o domínio dos bens da Terra e os lucros resultantes do monopólio do seu negócio.
Neste aspeto, como referi no artigo da semana passada, devemos estar agradecidos a Trump: ele acaba sempre por dizer ao que vem, mesmo quando se desdiz de seguida.
É, pois, doloroso assistir às preleções dos novos ‘pastores’ do trumpismo - algumas das comentadoras e dos comentadores televisivos - que, com demasiada frequência, se obrigam a fazer autênticas e dolorosas piruetas discursivas para justificar ou esconder as terríveis verdades que conseguem romper o ‘muro da mentira’.
Apetece, pois, dizer: «Que Deus lhes perdoe! Não sabem o que fazem!»