quinta-feira, 05 mar. 2026

O fascismo e os fascismos

O fascismo seduziu, nos anos trinta e quarenta do século passado, alguma da juventude da então frágil classe média portuguesa.

1. Comprei recentemente um livro de Zeev Sternhell (e de outros historiadores) intitulado, em francês, Naissance de l’idéologie fasciste. Já tinha lido, em português, outro livro seu: Nem direita nem esquerda - A ideologia fascista em França.

Este último levou-me a olhar com interesse para a forma como os fascismos seduziram, nos anos trinta e quarenta do século passado, muita gente e, no que nos diz respeito, alguma da juventude da então frágil classe média portuguesa.

A tese desenvolvida em tais livros resume-se assim: o fascismo pretendeu apresentar-se como um movimento antissistema, que visava ultrapassar os antagonismos de classe, muito acesos e evidentes nas democracias liberais.

Defendia, ainda, estar acima da divisão tradicional entre direita e esquerda e desejava, em nome da unidade da nação, constituir uma ponte entre os legítimos interesses de uns e de outros.

Segundo Zeev Sternhell, o fascismo não nasceu, como outros defendem, apenas como consequência da Grande Guerra.

Muitas das ideias que deram corpo à sua ideologia já estavam presentes no pensamento de alguns intelectuais e ativistas políticos franceses do final do século XIX.

O fascismo opunha-se, aparentemente com igual ferocidade, tanto à prática política das democracias liberais como ao débil reformismo do pensamento socialista e, mais tarde, ao movimento comunista.

Várias correntes de pensamento e diferentes e contraditórios movimentos políticos, uns ultraconservadores e nacionalistas, e outros com origem em grupos de sindicalistas autónomos e vanguardistas conjugaram-se, assim, para formar o que veio a ser o volúvel discurso teórico e a sempre agitada e violenta ação antidemocrática do primeiro fascismo italiano.

2. Ler e estudar as obras citadas ajuda, pois, a compreender melhor os ‘ziguezagues’ das referências e posições políticas dos defensores da nova direita radical portuguesa.

Tais variações não são originais, nem apenas fruto de um oportunismo tático: revelam, sim, contradições reais, visíveis nos discursos das suas lideranças nacionais e igualmente nas histriónicas manifestações públicas dos que a apoiam ou nela votam.

Apesar do seu recente e expressivo resultado eleitoral, não há, contudo, nos seus programas e discursos uma unidade coerente de razões ou um projeto político, social e económico congruente e inovador.

Podemos, certamente, situar o descontentamento de muitos jovens que votam na direita radical na travagem brusca das suas expectativas de vida, resultante da aplicação insensível de políticas salariais e de emprego neoliberais.

Podemos acrescentar-lhe ainda, como motivação adicional, a evidente deterioração de serviços públicos essenciais, como a saúde e a educação.

Podemos invocar igualmente o desânimo causado pelo difícil acesso à habitação e pela consequente dificuldade em estabelecer relações familiares estáveis.

Podemos, por fim, evidenciar a desmoralização social gerada pelo conhecimento constante de casos de corrupção, compadrio e todo o tipo de abusos no exercício do poder político e administrativo.

3. Não menos importante para o descrédito da democracia é, igualmente, a atitude condescendente de alguns, que se consideram democratas, com os que dela apenas se aproveitam para benefício próprio.

Derrotada nas urnas a direita radical, é, pois, fundamental, agora, abrir as janelas e deixar que o vento fresco da democracia constitucional que se faz de novo sentir aparte de vez tais aproveitadores.

A credibilidade e perenidade do nosso regime democrático e constitucional depende disso.

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