quarta-feira, 11 fev. 2026

Notícias da potência imperial

Em rigor, só conhecemos a posição firme e coerente de um dos candidatos presidenciais que, para a manter, prefere perder votos a ser acusado de pactuar com os embustes imperiais.

O fim de semana passado foi angustiante. Por mais que procurássemos, na TV ou na rádio, um programa que nos distraísse dos problemas diários, sempre acabava por acontecer sermos literalmente bombardeados, hora a hora, com notícias de recentes e futuras intervenções dos EUA nas mais variadas partes do mundo.

Ainda se comentava a intervenção americana na Venezuela e já era tema de debate a intervenção que se seguiria: na Gronelândia, na Colômbia, em Cuba, no Irão e, porventura, no Canadá.

Alvitrava-se mesmo a possibilidade de os EUA ensaiarem, na Rússia, o mesmo tipo de operação que desenvolveram com sucesso na Venezuela: capturar ou eliminar Putin.

As opiniões, como sempre nestes momentos, variavam.

Desde os puros militaristas, que se deleitavam simplesmente com a qualidade técnico-militar da operação Venezuela, passando pelos que procuravam um equilíbrio impossível entre o apoio ao resultado de tal intervenção e a condenação da violação da soberania desse país, até aos que condenavam, pura e simplesmente, o objetivo, os meios e o resultado, todas as ideias – por mais estapafúrdias que algumas parecessem – foram sendo debitadas a um ritmo alucinante nos media formais e nas redes sociais.

Apesar do irrealismo de alguns desses comentários, dei comigo a pensar que, por ora, ainda nos era possível falar com toda a liberdade.

Liberdade que, por certo, já não teríamos se uma operação cirúrgica, como a que ocorreu na Venezuela, nos viesse a curar a todos de alguma incontrolada prolixidade, doença que, claramente, atacou com gravidade os comentadores políticos portugueses.

Com efeito, ainda que as palavras do Presidente dos EUA fossem explícitas, os comentadores que se habituaram a sempre justificar qualquer intervenção dos governantes desse país procuravam encontrar, aflitos, uma explicação plausível que nos guiasse para uma verdade diferente e mais compreensível dos factos que, entretanto, se viam e ouviam – incontornáveis – nos noticiários da TV.

Em alguns casos, cheguei a ter pena dos pobres comentadores que tinham de analisar tais palavras, pois, ainda mal tinham acabado de o fazer, já havia notícias novas que, brutalmente, os desautorizavam.

Embora lamente não saber a opinião dos candidatos às eleições presidenciais que, entre nós, se perfilam dia-sim, dia-não na linha de partida para a segunda volta – em rigor, só conhecemos a posição firme e coerente de um dos candidatos, que, para a manter, prefere perder votos a ser acusado de pactuar com os embustes imperiais –, compreendo, desta vez, o cuidado que tiveram para não terem de se desdizer a um ritmo a que não estão habituados.

Temo, pois, que, caso a realidade se acelere demasiado, fiquemos sem conhecer o que realmente pensam os outros candidatos daquilo a que eu chamaria o strip-tease político do discurso da potência imperial.

O tempo das intervenções e invasões militares, levadas a cabo em nome da violação dos "direitos humanos" dos outros povos e da imperiosa obrigação moral de criar ou devolver aos invadidos um sistema constitucional democrático e liberal, já foi.

Na verdade, parece difícil compatibilizar um discurso ameaçador contra a desalmada repressão das manifestações populares contra a carestia de vida no Irão e justificar, internamente, o que, de acordo com o que todos também vimos na TV, pareceu a meio-mundo ser uma execução sumária de uma cidadã norte-americana que protestava pacificamente contra a violenta intervenção da polícia da imigração existente, agora, nos EUA.

Habituem-se!

A potência imperial deixou de necessitar de dar explicações aos súbditos.