quinta-feira, 05 mar. 2026

A tempestade perfeita

Quando as coisas se revelam verdadeiramente difíceis de resolver, é necessário dar lugar a quem, no Estado, sabe como fazer.

Depois de semanas de discursos, entrevistas e comícios, o país levou um verdadeiro banho de realidade, para que os cidadãos não se esquecessem de que, afinal, vivem em Portugal.

A realidade, queiramos ou não, acaba sempre por se impor, mesmo que, para isso, alguns tenham de sofrer as mais duras e injustas provações e outros, inclusive, paguem com a vida o conto de fadas em que fatalmente acreditaram.

A tempestade Kristin não destapou apenas telhados de casas e fábricas; expôs, sobretudo, a dificuldade que as administrações locais e a administração central revelam na prevenção e na reação coordenada, eficaz e atempada às intempéries e aos desastres que delas resultam.

A substituição das chefias profissionais das carreiras públicas por comissários políticos, bem como a incapacidade de decisão que muitos dos assim nomeados para cargos de elevada responsabilidade têm demonstrado, deveria constituir um sério sinal de alerta para todos — governantes e governados.

Não vou deter-me nos lastimáveis teatrinhos a que, na ressaca da tempestade, todos assistimos pela televisão, protagonizados por alguns responsáveis políticos.

Compreendo, no entanto, melhor agora a razão que levou à escolha de um almirante para dirigir a campanha de vacinação.

Quando os problemas são complexos e exigentes, torna-se evidente a necessidade de entregar a responsabilidade a quem, no Estado, sabe como fazer e o faz sem subordinação a interesses próprios ou alheios.

O Presidente da República sugeriu a constituição de uma ‘comissão técnica independente’ para analisar os efeitos da catástrofe natural e, sobretudo, para avaliar as razões da resposta tardia – ou ainda inexistente – por parte das entidades competentes, nomeadamente na reposição da energia elétrica e no abastecimento de água.

Se quatro olhos veem melhor do que dois – e disso não duvidamos –, mais dois olhos experientes, treinados para interpretar informação e, sobretudo, para decidir em tempo útil, são essenciais e evitam hesitações inúteis.

Uma coisa é a análise técnica feita com autonomia por quem estudou; outra, bem diferente, é a capacidade de, com base nela, tomar decisões tempestivas, assumindo responsabilidades e agindo.

Não se trata, neste momento, de discutir políticas ou a Política – temas distintos e que terão o seu tempo –, mas de assumir a responsabilidade por soluções concretas para os graves problemas das pessoas e das empresas afetadas pelo temporal.

Se o almirante não revelou grande aptidão para gerir uma campanha político-eleitoral – cujos códigos e retórica claramente desconhecia –, demonstrou, na organização da campanha de vacinação contra a pandemia, qualidades raras entre nós: capacidade de gestão, de decisão e de gerar confiança dos cidadãos na atuação do Estado.

Não defendo que se nomeie o almirante – um almirante – para coordenar as respostas urgentes aos problemas causados pela tempestade.

Mas, se este ou outro almirante não for considerado a pessoa indicada para liderar a ‘comissão independente’ e decidir o que houver que decidir, haverá certamente um general, um engenheiro ou um gestor do Estado, com competência técnica, experiência e provas dadas, que deveria ser encarregado dessa missão.

Ao Estado o que é do Estado.

O que se seguirá a partir de agora será politicamente muito mais esclarecedor do que qualquer campanha eleitoral – e há quem disso não se vá esquecer.

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