A situação política mundial é de tal maneira delicada e influenciada por fatores novos que a sua análise dificilmente pode socorrer-se apenas das clássicas grelhas de leitura herdadas das grandes narrativas dos séculos anteriores.
Do ponto de vista da força militar, o que sucede hoje parece não ter paralelo no passado.
Potências como os EUA veem-se defrontadas diretamente por potências que, mesmo sem deterem armas nucleares, conseguem aguentar a ofensiva americana e responder, taco a taco, aos ataques de que são alvo, por mais avançados que sejam os meios tecnológicos e bélicos que o seu agressor detenha.
O mesmo se passa na Europa em relação à Rússia, na sua contenda com a NATO travada em território ucraniano.
Os impasses sucessivos neste último conflito mostram como o desenvolvimento permanente de novas armas e de técnicas para o seu uso vai, alternadamente, anulando as vantagens de um e de outro bloco.
O uso de sanções económicas, em muitos casos à revelia das organizações internacionais com legitimidade para as impor, revela-se também inconsequente, pois frequentemente tem efeitos nocivos na economia das potências que as impuseram e na dos seus aliados.
O desvendar das ‘ilegalidades’ que as potências, de um lado e do outro, usam para contrariar a capacidade produtiva dos inimigos, desarma, ética e juridicamente, a sua invocada superioridade moral e revela, em muitas situações, a sua verdadeira cara: que não é tão risonha e amável como pretendem.
Tais atitudes e práticas de enfrentamento mundial produzem, a nível nacional, uma erosão permanente do Estado de Direito dos países que dizem assentar nele a racionalidade e a justeza da governação.
Por mais sofisticados que sejam os meios digitais usados para encobrir e despistar as verdadeiras razões dos conflitos, é hoje quase impossível esconder a realidade aos povos neles envolvidos ou por eles afetados.
As arbitrariedades cometidas em países alegadamente não democráticos e as perpetradas pelos que dizem sê-lo são reveladoras da verdadeira natureza política de todos eles.
Demonstram, igualmente, quão frágil é, afinal, a cortina de fumo propagandística concebida para justificar e legitimar a natureza desses confrontos e os métodos de guerra neles empregados.
Ideologicamente, pouco se diferenciam.
Os oligarcas de uns são feitos da mesma massa que os de outros.
Os fundamentalistas religiosos que, num lado, querem o extermínio dos infiéis não diferem também dos que, no outro, pregam exatamente o mesmo.
Os testemunhos dos que, ao longo da História, fizeram sofrer e sofreram as brutalidades a que tal tipo de radicalismos conduz – por mais sábias e bem fundamentadas que sejam, agora, as encíclicas que os seus pontífices ditam – são ignorados pelos media dos senhores da guerra, que, embora reivindicando-se da mesma fé, dificultam a sua divulgação, estudo e debate.
Relaxados os princípios e os valores que levam os homens a procurar a justiça para si, para os seus e para o próximo, assegurando, assim, o bem comum que lhes permite a todos viver juntos, renascem das cinzas as forças nacionalistas, racistas e populistas que apenas acreditam no uso da força e na submissão dos mais fracos.