segunda-feira, 13 abr. 2026

Irresponsáveis, sim!

Johann Chapoutot é Professor na Sorbonne e escreveu, em 2025, um livro que todos os democratas – todos mesmo – deviam ler: «OS IRRESPONSÁVEIS – Quem pôs Hitler no poder?»

O que esta obra de Johann Chapoutot explica não é, reconheçamos, uma completa novidade.

O que de novo ela revela são os pormenores do reconhecimento tardio dos erros de avaliação em que os políticos do centro e da direita alemã incorreram, quando aceitaram distribuir lugares políticos e de gestão, ao partido nazi e aos seus dirigentes, primeiro nos departamentos dos estados e depois nos órgãos de soberania do Reich.

A sua sobranceria levou-os a crer que os nazis, uma vez incluídos em órgãos de governação e de responsabilidade pública, desde que orientados e dirigidos por eles, se subordinariam depressa à sua mais experiente direção política, económica e técnica.

Mas não aconteceu assim.

As pastas escolhidas e atribuídas ao partido nazi nos executivos de coligação que passou a integrar mostraram bem que quem estava mal preparado para compreender a realidade política do momento eram, afinal, os “experimentados” políticos do centro e da direita.

Os nazis, não por acaso, não reivindicaram pastas económicas ou financeiras: não era aí que batia o ponto.

Optaram, isso sim, pelas pastas da administração interna, da educação e da cultura.

Os problemas da economia e das dificuldades que os cidadãos alemães sentiam no dia-a-dia ficaram a cargo daqueles que no Governo defendiam, assumidamente, os interesses dos grandes industriais e agrários – os partidos centristas e de direita.

Para os nazis ficou, pois, a política de defesa e reposição da ordem interna no país que, até então, vivia dominado pelos enfrentamentos recorrentes das milícias partidárias armadas e que, desde o fim da Grande Guerra, vivera já várias insurreições de distintos sinais políticos.

Com tal pasta e os respetivos meios repressivos, estes passaram, de imediato, a controlar, sobretudo, as iniciativas políticas levadas a cabo pelas forças democráticas e de esquerda que se lhes opunham: etiquetas políticas que, rapidamente, passaram a colar aos próprios aliados do governo, quando estes não alinhavam com a brutalidade demonstrada pelos militantes nazis na defesa da “ordem”.

Mas os nazis ficaram, também, com os cargos políticos e públicos que, a nível central do Reich e dos estados que o integravam, norteavam a educação e a cultura dos alemães: pelouros que os autorizaram a reinventar a História da Alemanha, dos alemães e a dos seus vizinhos e inimigos ideológicos e étnicos.

Ficaram, enfim, com os instrumentos que lhes permitiram ganhar músculo e a hegemonia cultural que lhes proporcionou a “legitimação” ideológica para as barbaridades que, já então, iam cometendo impunemente contra os militantes de esquerda, os judeus (os palestinianos de então) e os ciganos.

A ideia peregrina que o Centro e a Direita alemã e os interesses financeiros e industriais que aqueles representavam tinham de que, controlando as pastas económicas, determinariam a estratégia e o eixo político das alianças que ensaiaram com os nazis saiu-lhes cara e cara saiu, também, aos povos de todo o mundo e mesmo aos próprios alemães.

Cotejando o que então se passou, diz-se, em síntese, logo na contracapa de IRRESPONSÁVEIS: «Este extremo-centro considera-se, por natureza, destinado a governar: recorrendo aos poderes presidenciais, à violação da Constituição e à repressão. Num panorama parlamentar fragmentado em “três blocos”, este extremo-centro só vê uma solução: […] decide aliar-se à extrema-direita, com a qual partilha, no fundo, quase tudo.»