segunda-feira, 14 set. 2026

'Está de ananases!'

Não podemos, é dizer, satisfeitos, que os exercícios levados a cabo pelos que governam os impérios e as grandes nações, para, alegadamente, controlarem a sua tendência planadora, contribuem decisivamente para os levar a pôr os pés na terra.

É de rachar! Está de ananases! Derrete os untos!». repetia o meu pai, citando Eça em A Correspondência de Fradique Mendes, sempre que o calor apertava nos Algarves quando por lá vivíamos.

É isso que me apetece exclamar, agora e aqui, quando simplesmente respirar custa quase tanto quanto fazer qualquer exercício físico, mesmo que muito cedo e a horas presumivelmente aceitáveis e adequadas a tais atividades.

«Está de ananases!», repito eu, mais sintético, aí pelas sete da manhã, quando, na ciclovia da estrada do Guincho, faço a minha usual corrida matinal.

Pergunta-me, então, quem me ouve: «Por que corres? Quem te manda?».

E eu, olhando por cima o voo de uma gaivota, respondo ao curioso: «A saúde a isso me obriga. É o exercício que me tem mantido. Quando não o faço, parece que deixo de estar cá; simplesmente plano!».

«Pois» - responde, incrédulo, o que me interpelou e cala-se.

Falar de doenças e argumentar com elas frequentemente provoca essa reação: o silêncio súbito do interlocutor.

2. Quando hoje falamos da temperatura política do país e do mundo, podemos dizer também «Está de ananases»: e está mesmo.

Não podemos, é dizer, satisfeitos, que os exercícios levados a cabo pelos que governam os impérios e as grandes nações, para, alegadamente, controlarem a sua tendência planadora, contribuem decisivamente para os levar a pôr os pés na terra.

Pelo contrário, vemo-los todos os dias a planar sempre mais alto, para altitudes que a maioria dos súbditos - e, mesmo, dos cidadãos - não os pode alcançar com o olhar e, assim, compreender o que andam eles, lá por cima, a fazer uns com os outros e uns aos outros.

É que, planando eles sempre mais, sabemos apenas, que deixaram de estar cá, connosco.

Assim, na melhor das hipóteses, desinformados, diremos cá em baixo os que ainda os observam: «É de rachar!».

E, infelizmente, acertamos com demasiada frequência.

O que aqueles governantes fazem quando planam - e muito planam eles - pode mesmo vir a ‘rachar’ o mundo e, com ele, a maioria dos (des)governados que, cá em baixo, atónitos, assistem sem ainda atentarem plenamente nas consequências de tal baile celeste.

O que os (des)governados sabem, por experiência anterior, é que tais danças aéreas podem, de facto, descambar e acabar por ‘derreter os untos’ de todos nós.

Mas isto somos nós a pensar, que estamos cá em baixo a vê-los voar e voar.

Talvez devêssemos também pedir uns ‘Patriot’ para os obrigar a aterrar e a prestar contas aos que, para entreter, por cá, cantam, não com a costumada alegria, é certo, mas já com pavor: «Lá em cima está o tiro-liro-liro / cá em baixo está o tiro-liro-ló».

É que não temos meios de continuar a canção e de os fazer juntar à esquina para nos darem contas do que cada um anda a tramar com a sua concertina.

O que sabemos é que do unto há pelo menos dois deles, dos planadores, que o abominam.

Restamos, por isso, nós, aqui, que até nem temos essas restrições de gosto culinário e que podemos vê-lo - ao unto, claro - e ver-nos a nós, também, derreter com ele sem saber, na realidade, a causa de tanto nojo.