terça-feira, 18 ago. 2026

Divagação sobre o meu jejum noticioso de verão 

No verão, sucede-me, por norma, sentir uma súbita aversão a tudo o que é notícia e noticiário.

No verão, sucede-me, por norma, sentir uma súbita aversão a tudo o que é notícia e noticiário.Acontece, primeiro, a vontade de não ver televisão.

De tantas vezes que isso me aconteceu, resultou a necessidade de refletir sobre essa minha espontânea recusa.

A primeira e mais lógica explicação que encontrei tem a ver com o facto de, mais do que em outras épocas do ano, jantar fora e ficar a conversar numa esplanada qualquer até altas horas da noite.

Sucede, porém, que essa minha rejeição em ser informado também se verifica, menos é certo, no que respeita à rádio, que ligo apenas por breves momentos, pela manhã, quando faço a barba.

Depois, tal fenómeno de repulsa estende-se paulatinamente ao longo do dia aos jornais.

Se me calha em caminho encontrar quem os venda, compro-os.

Se isso me obrigar a deslocar-me a algum posto longínquo, desisto e vivo bem sem eles. 

Mesmo quando os adquiro, a verdade é que passo os olhos pelos títulos e, excecionalmente, leio neles não mais do que uma notícia ou um artigo.

Livros, sim. Leio-os com grande velocidade, permitindo-me, assim, abarcar o que diz uma apreciável quantidade deles, especialmente alguns cuja leitura guardei de propósito para este período do ano.

Parece-me, na verdade, que os entendo melhor, que me conseguem suscitar outros pensamentos e outras sensações que as estações mais frias me impedem de alcançar.

O calor também dilata as ideias.

O que mais me surpreende nesta suspensão da vontade de andar informado é o facto de, realmente, não sentir qualquer efeito penoso resultante da frustração da adição noticiosa de que geralmente padeço durante o resto do ano. 

A desnecessidade das notícias assalta-me, em regra, com as primeiras imagens televisivas estivais de incêndios que grassam em várias partes do mundo e, em especial, em Portugal.

Diante das horrendas – e perigosamente contagiosas – imagens de fogos e de bombeiros correndo, algo desnorteados, para os apagar, fecho o televisor e … boas férias.

Não é egoísmo; é a vontade de não transformar a desgraça dos outros em cruel recreação, mais própria, aliás, de um circo romano.

Das outras notícias não cuido.

Elaboro, porém, uma espécie de jogo a partir desse meu isolamento voluntário.

Ele consiste em fixar uma ou outra notícia mais relevante e, no regresso a casa, depois de muitos dias fora, procuro saber o que sucedeu, entretanto. 

Em regra, constato que nada de relevante ocorreu.

De tal notícia não decorreram consequências, nem para aqueles que estão na origem do facto divulgado pelos media, nem para os cidadãos cujas vidas foram afetadas por ele.

Os responsáveis por tais factos, mesmo que conhecidos, continuam sem ser responsabilizados, e os cidadãos por eles afetados continuam afetados.

O discurso político sobre tais factos ou se enreda em justificações teóricas que, no caso, nada explicam, ou procura suscitar o medo de que a sua repetição possa ocorrer: depende do que interesse, no momento, ao executivo ou à oposição.

A mensagem pretendida por uns é, em regra, a de que tudo piorará se algo mudar.

A pretendida por outros é que tudo se agravará, caso os que mandam continuem a mandar.

Aí, o papel do medo.

Trocado por miúdos: tudo o que se passou entre a primeira notícia de um evento e o momento em que, depois de pelo menos um mês, regresso a casa, foi nada.

O que aconteceu, aconteceu porque tinha de acontecer; o que não aconteceu, mesmo que devesse, não sucedeu por não ser suposto acontecer.