Vivemos dias em que tudo o que acontece no mundo nos é contado através da cupidez e desonestidade de uns e da ineptidão ou negligência de outros.
Sem darmos conta, vamos esquecendo, nenhuma delas sobrevive fora do contexto que as procriam ou permitem.
Sugerindo a demissão de qualquer responsável ou a punição de um notável abusador, não nos perguntamos por que razão tais ‘gerentes’ chegaram onde chegaram, fizeram o que fizeram e são depois nomeados para ir fazer pior em outras áreas.
À esquerda, aponta-se o egoísmo cruel das doutrinas da direita, justificadas numa aceite desigualdade natural dos homens, o que legitima a conduta gananciosa de uns tantos: os seus apoiantes.
À direita, aponta-se o irrealismo da esquerda que só sabe propor medidas impraticáveis e demolidoras das bases da sociedade e economia que contam, sem propor uma alternativa credível.
Em suma, enquanto cidadãos insatisfeitos, somos levados a discutir os comportamentos individuais dos responsáveis pelos pelouros da governação e nunca as bases e os fundamentos racionais e morais das suas escolhas.
Apontam-se erros, denunciam-se crimes, discutem-se projetos concretos, adjetivam-se opções menores, mas, na realidade, não se questiona a própria Política que, com mais ou menos tinta amarela, azul ou rosa, tem orientado a governação da sociedade: da sociedade nacional, da sociedade europeia e, agora, da sociedade mundial.
Rimo-nos, superiores, das fantochadas dos bobos que, com a complacência de todos, governam o mundo.
Apoiamos, contudo, irrefletida e incondicionalmente as farsas de outros comediantes que, a rogo, paulatina e friamente, nos empurram para uma terrível III Guerra, para a qual teremos, além do mais, de comprar as armas que usarmos ao primeiro dos palhaços.
Protestamos, ainda, vá lá:
Contra a incapacidade do SNS e dos que o governam;
Contra os falhanços na verificação dos resultados dos exames e de quem idealizou o seu atual sistema;
Contra os atrasos da justiça e os órgãos do governo dos magistrados que ‘achamos’ serem os seus responsáveis;
Contra a violência policial e de quem a permite ou a incita, sem nos perguntarmos porquê;
Contra a falta de habitação e contra quem não previu a sua crise ou, pior, a previu e com ela ganha;
Contra a barbaridade das pretendidas reformas laborais e contra extremistas a quem pediram que as concebessem e de quem, todos sabíamos, não se podia esperar outra coisa;
Contra a vontade de entregar a segurança social às companhias de seguros privadas, colocando o futuro de todos nas mãos dos que só pensam em obter lucros;
Contra a falta e má gestão da água e os que a não anteciparam;
Contra os preços dos combustíveis e do sistema que os regula;
Contra a iniquidade do sistema fiscal e a vontade de o tornar ainda mais iníquo.
Mas o que importa verdadeiramente é discutir a Política.
A Política que justifica as repetidas opções políticas que produzem sempre os mesmos resultados e as mesmas vítimas.
Discutir a Política sem ‘langue de bois’ e à margem dos modelos políticos históricos que se revelaram incapazes de dar corpo às ideias generosas que os geraram.
Sim, discutir a Política tendo em conta a ciência e a técnica de hoje, que alguns sábios têm generosamente desbravado e que, se devidamente usadas, permitem à humanidade a esperança numa vida melhor.
Enfim, discutir a organização de uma sociedade mais democrática, mais justa e capaz de assegurar, desde já, mais igualdade e a realização do bem comum.
Discutir política, enfim!