O folhetim da guerra EUA-Irão parece não ter rumo nem fim.As razões e evoluções desse conflito mudam constantemente ao sabor dos estados de alma de quem o iniciou e já não sabe – se alguma vez soube – para o que ela serve nem como acabar com ela.
Talvez nunca na História os responsáveis pelo desencadeamento de uma guerra se haviam mostrado tão pusilânimes.
E, no entanto, são eles que hoje governam a maior potência mundial, aquela que detém o maior, mais moderno e mais destrutivo arsenal de armas convencionais e nucleares.
A decisão irrefletida de iniciar esta guerra e a forma irresponsável como ela está a ser conduzida só podem, pois, provocar o pânico entre as nações do mundo.
Não nos esqueçamos de que foram os EUA o único país, até hoje, a ter utilizado armas nucleares num teatro de operações.
Se muitos têm receio de que os governantes atuais do Irão venham a ter acesso à arma atómica, a forma como os EUA estão a lidar com o assunto não pode, exatamente pelas mesmas razões, deixar de apavorar ainda mais o mundo.
Refiro-me ao facto de tais armas já estarem, ou poderem vir a estar, nas mãos de líderes políticos e religiosos fanáticos.
Israel – hoje muito dominado pelo fanatismo religioso – já dispõe de tal tipo de armas e os seus governantes atuais não primam pela sensatez e pela delicadeza.
O fanatismo religioso que orienta a política belicista não distingue deuses.
2. Incapaz de seguir já, com serenidade e alguma compreensão, o que se está a passar, este fim de semana decidi desligar-me dos media e dedicar-me à leitura.
Em boa hora o fiz.
Calhou pegar num livro que reúne uma entrevista com Ernst Bloch, intitulado Rêve Diurne, Station Debout & Utopie Concrète.
Referindo-se aos que considerava responsáveis pelo início da I Grande Guerra – os governantes alemães – e às razões que a determinaram, referiu esse filósofo e intransigente pacifista alemão algumas das causas culturais que determinaram a guerra: «Porque já não temos ideias, porque há muito que deixámos de ser um povo de poetas e pensadores; porque já não há nada de fundamental – tudo isto porque o estômago não conhece outro deus senão o prazer e tudo o resto é relegado ao nível de diversão». (tradução minha)
Queria, com isto, dizer que residia no facto de os governos, os partidos no poder e as suas políticas não se orientarem pela vontade de materializar uma utopia concreta dirigida à realização próxima do bem comum – a que ele chamava o ‘sonho diurno’ – que a guerra surgia como uma alternativa absurda e maléfica à insatisfação popular.
Hoje, confrontando-nos com o vazio de sentido das políticas dominantes, aquelas para as quais os seus propagandistas proclamam não haver alternativa, percebemos melhor o pensamento daquele filósofo e a razão da futilidade da guerra atual.
O problema consiste, porém, na dificuldade de mobilizar as deslaçadas sociedades que a ideologia neoliberal fragmentou em torno de uma ampla e geralmente aceite ideia de justiça e de uma correspondente ação coletiva que, pela sua abnegação, seja capaz de isolar moral e politicamente os fautores da guerra e as pequenas razões que invocam para a fazer.
E, no entanto, os discursos cada vez mais desnorteados dos responsáveis pela guerra constituem razões mais do que suficientes para que uma ampla indignação se converta numa reação firme e solidária com todas as vítimas do verdadeiro crime que esta guerra escusada representa, por si só.