1. É difícil não começar já a ter saudades dos bons e mesmo dos muitos maus momentos que atravessámos nos últimos anos. E, no entanto, nesse período recente, tudo ou quase tudo correu mal!
Correu mal na saúde, correu mal na escola pública, continuou a correr mal na Justiça.
Correu mal na falta de habitação acessível à maioria dos portugueses e no consequente e escandaloso crescimento do número dos sem-abrigo.
Correu mal nos projetos de legislação laboral, na política salarial e na de atualização das pensões mais baixas, que continuam a castigar grande parte dos portugueses mais desfavorecidos (vejam-se as estatísticas das pressões sobre os trabalhadores portugueses, publicadas pela Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho).
Correu mal para os jovens que acabaram os seus cursos universitários e que só pensam em emigrar para poderem ter uma vida digna.
Correu tudo mal, uma vez mais.
E, contudo, permanece a ideia de que o futuro só pode ser pior: os que se sucederem no poder nem animadores nem empáticos com os mais desfavorecidos conseguirão ser.
2. Correu tudo tão mal que os quatro candidatos às eleições presidenciais que, no campo constitucional, as sondagens nos apresentam como elegíveis para a segunda volta são manifestamente inábeis para empolgar quem quer que seja – nem mesmo as forças políticas que, formalmente, os apoiam.
Com efeito, nenhum deles demonstrou, até hoje, ter capacidade para apoiar uma mobilização social solidária que tenha em vista acabar, consistentemente, com a degradante situação de pobreza em que uma considerável parte dos portugueses ainda vive.
3. Nunca, como agora, vi e ouvi – entre as pessoas que conheço e os amigos que tenho – tanta indecisão na escolha dos candidatos em quem votar.
Alguns falam, cautelosos, na necessidade de um voto útil logo à primeira volta.
Outros dizem duvidar se, desta vez, o voto útil se justifica.
Explicam que os quatro candidatos que, no campo democrático e constitucional, as sondagens indicam poder estar na grelha de partida para passarem à segunda volta pouco diferem entre si: todos defendem, em geral, as políticas que conduziram Portugal à situação atual.
Acrescentam que, em qualquer cenário, a escolha dos portugueses na segunda volta será feita por exclusão de partes – o mal menor – e nunca com entusiasmo e adesão a um projeto político generoso e credível, pela simples razão de que nenhum de tais candidatos está nisso empenhado.
A opção de voto na segunda volta terá de ser, por fim, entre quem diz querer manter e respeitar a atual Constituição e quem, declaradamente, a abomina e a quer revogar.
4. E, no entanto, existem, entre os que concorrem à primeira volta, candidatos com experiência política, motivação, projeto, conhecimento da realidade nacional e comprovada credibilidade democrática, capazes de mobilizar os portugueses a erguer um novo e mais prometedor patamar de justiça social e desenvolvimento.
Candidatos que já demonstraram ser capazes de encorajar o país a enveredar por uma política realista de maior justiça na distribuição da riqueza e que, por ser séria, possa – como recentemente aconteceu com a Greve Geral – reunir um consenso social alargado.
Com efeito, a votação expressiva num candidato que defenda um verdadeiro projeto de justiça social pode – mesmo que ele não vença as eleições – condicionar a perpetuação de um presente iníquo e, mesmo, a vontade de alguns de, à revelia da atual Constituição, construírem, no futuro, um país igual ao que já foi num passado não muito remoto.