Vivemos, hoje, um ataque permanente e mentiroso à memória do 25 de Abril.Tal memória é ainda retida e partilhada por muitos dos que participaram na resistência ativa contra a ditadura e por aqueles que, a ela não se tendo verdadeiramente oposto, com ela já não sabiam ou conseguiam viver.
Do que se trata agora é, pois, de contrariar a persistente e insidiosa campanha política contra o 25 de Abril e a Constituição (CRP) que aqueles que se assumem claramente como defensores do antigo regime desenvolvem já com toda a desfaçatez.
Uns expressam uma oposição mais ideológica em relação ao conteúdo socioeconómico da CRP; outros dirigem-na sobretudo contra o seu generoso plano de liberdades e ao degelo social que se lhe seguiu.
E, no entanto, a CRP garantiu, até hoje, 50 anos de paz e progresso.
Por isso, quando digo paz, não falo de conformismo nem da serenidade dos mortos; falo – isso sim – da possibilidade, alcançada com o 25 de Abril, de todo e qualquer português expressar o que pensa sobre as políticas seguidas e a elas se opor, sem, por isso, ser perseguido, preso ou torturado.
Se, no período revolucionário, houve detenções impróprias, de um lado e de outro – era inevitável numa Revolução –, elas aconteceram, convém não esquecer, num momento em que ainda não se haviam, precisamente, institucionalizado as novas formas de governo adequadas da democracia constitucional que hoje nos rege.
Pensar, porém, que o número total de dias que todas elas duraram nem sequer ultrapassou, por exemplo, o total dos dias de prisão que José Magro, um só militante comunista, cumpriu – cerca de 7700 dias (21 anos de prisão) – dá bem a ideia da desproporção de métodos e do diferente alcance repressivo de tais medidas.
O risco de reescrever a História a partir das fantasias revanchistas de alguns políticos nacional-populistas, de alguns senhoritos marialvas e de alguns agressivos baronetes nortenhos não reside na mentira evidente das narrativas pseudo-heroicas que gostam de partilhar entre amigos à lareira.
Reside, na verdade, no facto de elas começarem a formatar também a memória dos militantes mais jovens de algumas das forças que, então, votaram a Constituição com plena consciência do projeto progressista que ela representava e de que o país dela necessitava para se desenvolver e reencontrar.
Não por acaso, algumas iniciativas que visavam comemorar os 50 anos da Revolução e da sua Constituição começaram, entretanto, a ser travadas e remetidas para um futuro de concretização duvidosa.
A desorientação política que se vai apoderando de alguns dirigentes mais recentes e inexperientes das forças políticas, nascidas já depois da Revolução, mas que, à data, colaboraram de boa-fé na redação e aprovação da CRP, é precisamente o objetivo que os mais afoitos inimigos do 25 de Abril querem alcançar com as suas tonitruantes arengas mentirosas, reacionárias e revanchistas.
Não, não há comparações possíveis, mas a mentira, propagada militantemente pelos novos cruzados da direita radical, alimenta e confunde a consciência dos que, não tendo vivido a Revolução, só ouvem o relato apócrifo dos que foram derrotados a 25 de Abril e, em rigor, nada ganharam com o seu tão celebrado 25 de Novembro.
O seu ódio à Constituição resulta, precisamente, de esta representar o compromisso histórico firmado apenas entre democratas, e que os afastou, até hoje, das instâncias do poder.