1. No último número da revista Versa li uma aliciante entrevista dada pelo Dr. Carlos Cruz, advogado e residente na Vila de Cascais.
Trata-se de uma entrevista de vida, em que ele discorre sobre a sua carreira de advogado, de político social-democrata, e sobre o desporto e o Sporting.
Fala, também, da atividade que hoje o prende mais: a escrita.
Carlos Cruz discorre, em Alegre Sereia, novela que editou recentemente, sobre uma Cascais de outros tempos, situando nela, e nas estórias que dela conta, gerações diferentes de residentes e banhistas.
Uma delas, a dele, brilha através da esperança na modernidade, que se expressava numa certa ‘rebeldia’ própria de uma juventude ainda assim favorecida e que começou a exprimir-se nos anos sessenta e setenta; modernidade, essa, que estava vedada ao país, então confinado pela ditadura.
Fala, ainda, de grupos de habitantes diferentes, mas indissociáveis: os residentes - nacionais ou estrangeiros - e os banhistas.
As estórias das antinomias assumidas e protagonizadas por estes distintos mundos de moradores - uns permanentes, outros temporários, uns ricos, outros pobres - dariam, acredito, matéria inspiradora para muitos outros romances e filmes.
A Alegre Sereia fala, com uma nostalgia óbvia, mas com realismo e consciência social, das, então, diversas maneiras de viver e coexistir em Cascais.
Jorge de Sena e Luís Filipe Rocha fizeram-no, em Sinais de Fogo, tendo como pano de fundo a praia da Figueira da Foz.
2. Em Cascais, cuja vida de verão Carlos Cruz tão bem faz reviver no seu livro, habitavam, então, também, alguns especiais tipos de estrangeiros: os espiões e alguns refugiados dos países que perderam a II Guerra.
Hoje, a Vila está repleta de turistas e de muitos mais estrangeiros residentes.
Tal mistura de povos e culturas traduz-se num ambiente alegre e descomplexado que pode, no entanto, contribuir para apagar estórias e memórias de outros tempos que importa aos portugueses evocar.
Cascais alargou, com efeito, a paleta das cores, das línguas e das músicas dos que a habitam ou visitam.
Entre eles, encontramos, maioritários, os brasileiros.
As casas que recentemente adquiriram, algumas semelhantes às que os portugueses ergueram em cidades do Brasil, foram por estes recuperadas, funcionando agora nelas estabelecimentos comerciais confortáveis e, interiormente, bem decorados.
Falo de restaurantes, de novos cafés, de bares e de lojas de roupa, onde brasileiros jovens, simpáticos e joviais nos recebem acolhedoramente.
São agora eles quem nos recorda uma regra antiga de educação: cumprimentar os que connosco se cruzam, mesmo que não os conheçamos.
Poderia falar, ainda, de ateliês de arquitetura e moda, de consultórios de dentista ou de consultadoria e de muitos outros negócios de brasileiros que tornaram a vida de Cascais mais cómoda, mais amável e mais cosmopolita.
3. Há, porém, um senão!
O barulho ensurdecedor com que novas tribos de motards bombardeiam regularmente os seus habitantes e turistas: ele torna a vida no centro da Vila insuportável.
Quem, de repente, acordar de noite, em Cascais, sobressaltado com os estampidos violentos de tais motas, pode chegar a pensar que está sob fogo em Teerão ou em Beirute.
Hoje, em Cascais, para além do trânsito descontrolado na rotunda onde culmina a marginal e se abrem as portas da Vila, o ruído (des)propositado das motos potentes é, talvez, o seu pior cartão de visita.