sexta-feira, 12 jun. 2026

Carlos Brito: na partida de um homem bom

Um dos exemplos mais óbvios da sua abertura de espírito reside no livro que escreveu sobre Álvaro Cunhal, já depois de ter sido suspenso do partido.

Li, com tristeza, a notícia da morte de Carlos Brito, que conheci ainda estudante e com quem falei várias vezes mais tarde.

Dele guardo a ideia de um homem sereno, afável, inteligente, firme nas suas ideias e propósitos.

Foi um lutador corajoso contra a ditadura que governou Portugal durante quase meio século, mas essa sua dura militância não o esvaziou de humanidade.

A clandestinidade e a resistência formaram muitos dos melhores e, ainda hoje, mais respeitados quadros do PCP.

No caso de Carlos Brito, aquelas circunstâncias não o impediram de valorizar devidamente, depois, o debate e a vida democrática do país; uma vida ainda com injustas antinomias, mas, em todo o caso, bem melhor do que foi a existência cinzenta e retrógrada que era a do antigo regime.

Um dos exemplos mais óbvios da sua abertura de espírito e capacidade de ver e admirar em cada homem a sua real dimensão humana – mesmo e sobretudo quando dele discordasse – reside no livro que escreveu sobre Álvaro Cunhal, já depois de suspenso do partido a que ambos dedicaram a parte mais importante das suas vidas.

Longe de cultivar o ressentimento que o seu afastamento do partido poderia ter provocado, a obra «Álvaro Cunhal: Sete Fôlegos do Combatente», que Brito escreveu em 2010, demonstra bem como é possível divergir de alguém, enquanto se lhe reconhecem as suas inegáveis qualidades e feitos.

Poucos são aqueles que o conseguem fazer.

A história do movimento comunista internacional está, aliás, cheia de exemplos opostos.

Não sei, sinceramente, qual dos dois tinha razão quanto ao caminho que o partido a que pertenciam deveria seguir, quando a História confrontou os comunistas com as razões do desabamento da União Soviética.

Na verdade, o PCP demonstrou, então, ser mais resiliente aos efeitos desse evento do que a maioria dos outros partidos comunistas europeus.

A sua presente situação e a resposta inovadora que inevitavelmente terá de encontrar, para poder continuar a lutar pela construção de uma sociedade mais justa e democrática, revelarão qual dos dois tinha razão ou se esta não residia, afinal, no que, em parte, cada um deles defendia.

Pena foi que as diferentes ideias de um e de outro, para lidar com as novas realidades políticas e sociais, não tivessem sido amplamente divulgadas e discutidas, não só entre os militantes, mas também entre os outros portugueses.

Hoje, infelizmente, não existem mais na nossa sociedade interlocutores e espaços sérios para desenvolver um diálogo público criativo sobre o destino da vida coletiva, que, por isso, vai sendo construída sem rumo: sem amanhã e sem futuro.

Vivemos numa época em que a discussão política se centra mais nas condutas individuais e nas atitudes mediáticas dos dirigentes políticos e menos nas ideias que estes têm – ou, mais correntemente, não têm – sobre o presente e o futuro.

O conhecimento das divergências que Cunhal e Brito tiveram sobre o melhor caminho para construir uma vida mais justa teria, porventura, ajudado hoje os portugueses, e não apenas os comunistas, a pensar num futuro próximo melhor.

Permitiria à sociedade pensar coletivamente sobre o que quer, pode e deve ir construindo, com vista a um amanhã feito de mais justiça e igualdade.

Relembrar Carlos Brito, no momento em que ele partiu, poderá, porventura, despertar na esquerda – e não apenas nos comunistas – a urgência de criar, em conjunto, um caminho de esperança para Portugal e os portugueses.