Li, com tristeza, a notícia da morte de Carlos Brito, que conheci ainda estudante e com quem falei várias vezes mais tarde.
Dele guardo a ideia de um homem sereno, afável, inteligente, firme nas suas ideias e propósitos.
Foi um lutador corajoso contra a ditadura que governou Portugal durante quase meio século, mas essa sua dura militância não o esvaziou de humanidade.
A clandestinidade e a resistência formaram muitos dos melhores e, ainda hoje, mais respeitados quadros do PCP.
No caso de Carlos Brito, aquelas circunstâncias não o impediram de valorizar devidamente, depois, o debate e a vida democrática do país; uma vida ainda com injustas antinomias, mas, em todo o caso, bem melhor do que foi a existência cinzenta e retrógrada que era a do antigo regime.
Um dos exemplos mais óbvios da sua abertura de espírito e capacidade de ver e admirar em cada homem a sua real dimensão humana – mesmo e sobretudo quando dele discordasse – reside no livro que escreveu sobre Álvaro Cunhal, já depois de suspenso do partido a que ambos dedicaram a parte mais importante das suas vidas.
Longe de cultivar o ressentimento que o seu afastamento do partido poderia ter provocado, a obra «Álvaro Cunhal: Sete Fôlegos do Combatente», que Brito escreveu em 2010, demonstra bem como é possível divergir de alguém, enquanto se lhe reconhecem as suas inegáveis qualidades e feitos.
Poucos são aqueles que o conseguem fazer.
A história do movimento comunista internacional está, aliás, cheia de exemplos opostos.
Não sei, sinceramente, qual dos dois tinha razão quanto ao caminho que o partido a que pertenciam deveria seguir, quando a História confrontou os comunistas com as razões do desabamento da União Soviética.
Na verdade, o PCP demonstrou, então, ser mais resiliente aos efeitos desse evento do que a maioria dos outros partidos comunistas europeus.
A sua presente situação e a resposta inovadora que inevitavelmente terá de encontrar, para poder continuar a lutar pela construção de uma sociedade mais justa e democrática, revelarão qual dos dois tinha razão ou se esta não residia, afinal, no que, em parte, cada um deles defendia.
Pena foi que as diferentes ideias de um e de outro, para lidar com as novas realidades políticas e sociais, não tivessem sido amplamente divulgadas e discutidas, não só entre os militantes, mas também entre os outros portugueses.
Hoje, infelizmente, não existem mais na nossa sociedade interlocutores e espaços sérios para desenvolver um diálogo público criativo sobre o destino da vida coletiva, que, por isso, vai sendo construída sem rumo: sem amanhã e sem futuro.
Vivemos numa época em que a discussão política se centra mais nas condutas individuais e nas atitudes mediáticas dos dirigentes políticos e menos nas ideias que estes têm – ou, mais correntemente, não têm – sobre o presente e o futuro.
O conhecimento das divergências que Cunhal e Brito tiveram sobre o melhor caminho para construir uma vida mais justa teria, porventura, ajudado hoje os portugueses, e não apenas os comunistas, a pensar num futuro próximo melhor.
Permitiria à sociedade pensar coletivamente sobre o que quer, pode e deve ir construindo, com vista a um amanhã feito de mais justiça e igualdade.
Relembrar Carlos Brito, no momento em que ele partiu, poderá, porventura, despertar na esquerda – e não apenas nos comunistas – a urgência de criar, em conjunto, um caminho de esperança para Portugal e os portugueses.