Esta Páscoa, o Papa Leão XIV voltou a fazer apelo ao fim das guerras, designadamente na Ucrânia, no Irão e no Líbano. O Papa falou ainda ao telefone com o Presidente de Israel, pedindo-lhe, igualmente, respeito pelo direito internacional.
A intervenção papal terá expressado, além disso, a sua preocupação com a situação atual dos cristãos do Médio Oriente.
Na região - também ela berço do cristianismo - subsistem, com efeito, várias igrejas cristãs locais. As igrejas Maronita, Melquita Greco-católica, Siro-católica, Caldeia e Arménia católica reconhecem a autoridade do Papa, e os seus fiéis espalham-se pelo Líbano, Síria, Palestina e Iraque.
Além destas, que têm ligação a Roma, existem aí também outras antigas igrejas cristãs autónomas, como, por exemplo, a Igreja Ortodoxa grega, Ortodoxa síria, Ortodoxa arménia, Nestoriana e Copta ortodoxa.
No seu conjunto, tais cristãos representavam 25% a 33% da população.
Até finais do século XX e início do século XXI, muitas destas igrejas eram respeitadas, e os seus fiéis tinham liberdade de culto, não sendo perseguidos pelas então autoridades (laicas) desses países, de quem, pelo contrário, recebiam proteção.
Com as invasões do Iraque e as intervenções na Síria e no Líbano por parte das forças dos EUA e de Israel, tudo mudou.
Muitas dessas comunidades cristãs começaram, conforme os casos, a ser perseguidas e pressionadas pelos militantes dos movimentos islâmicos extremistas e pelos igualmente radicais colonos judaicos, ante a passividade e conivência das diferentes autoridades políticas e religiosas que aí governam.
O resultado foi que, nestes últimos vinte e cinco anos, abandonaram a região entre três e três milhões e meio de cristãos. Hoje, os que ficaram representam apenas 3% a 5% da população.
Além dos cristãos, muitos outros adeptos de religiões minoritárias de diversas inspirações (yazidis, por exemplo) passaram aí a ser igualmente perseguidos e tiveram de emigrar.
É, assim, compreensível a apreensão do Papa.
Menos aceitável parece ser, no entanto, a menor preocupação demonstrada pelos governos ocidentais em relação à perseguição aos cristãos (e outras religiões) do Médio Oriente, resultante, sobretudo, das intervenções político-militares dos EUA e de Israel, a que, implícita ou explicitamente, deram e dão cobertura.
A ingerência dos EUA e das potências ocidentais nesta área do mundo saldou-se, pois, no reforço das políticas sectárias e racistas e no incremento da perseguição dos fiéis das minorias religiosas, algumas das quais aí sobreviviam em paz há cerca de dois milénios.
Abandonado o hipócrita discurso da defesa dos direitos humanos e da democracia, aparece agora, mais clara, a verdadeira razão de ser de tais intervenções militares: o controlo e exploração do petróleo por parte dos EUA e dos seus aliados.
Nesse aspeto, há, pois, que agradecer ao Presidente Trump a sinceridade crua que usa para justificar as causas das guerras que desenvolve, encomenda ou acalenta.
O que nos incomoda a todos não é que ele nos conte a verdade. O que choca é que, desvendada esta, ainda assim, os aliados ocidentais dos EUA e da sua tropa de assalto israelita continuem, sem qualquer pudor, a apoiar - declarada ou encapotadamente - a reinventada política da ‘canhoneira’, que o seu imperial ‘amigo’ leva a cabo, agora sem qualquer complexo ou disfarce, e, mesmo assim, encorajado e abençoado pelas mais belicosas seitas evangélicas.