quinta-feira, 14 mai. 2026

A Páscoa, o discurso Papal, o Ocidente e o negócio do petróleo

Nestes últimos vinte e cinco anos, abandonaram o Médio Oriente entre três e três milhões e meio de cristãos.

Esta Páscoa, o Papa Leão XIV voltou a fazer apelo ao fim das guerras, designadamente na Ucrânia, no Irão e no Líbano. O Papa falou ainda ao telefone com o Presidente de Israel, pedindo-lhe, igualmente, respeito pelo direito internacional.

A intervenção papal terá expressado, além disso, a sua preocupação com a situação atual dos cristãos do Médio Oriente.

Na região - também ela berço do cristianismo - subsistem, com efeito, várias igrejas cristãs locais. As igrejas Maronita, Melquita Greco-católica, Siro-católica, Caldeia e Arménia católica reconhecem a autoridade do Papa, e os seus fiéis espalham-se pelo Líbano, Síria, Palestina e Iraque.

Além destas, que têm ligação a Roma, existem aí também outras antigas igrejas cristãs autónomas, como, por exemplo, a Igreja Ortodoxa grega, Ortodoxa síria, Ortodoxa arménia, Nestoriana e Copta ortodoxa.

No seu conjunto, tais cristãos representavam 25% a 33% da população.

Até finais do século XX e início do século XXI, muitas destas igrejas eram respeitadas, e os seus fiéis tinham liberdade de culto, não sendo perseguidos pelas então autoridades (laicas) desses países, de quem, pelo contrário, recebiam proteção.

Com as invasões do Iraque e as intervenções na Síria e no Líbano por parte das forças dos EUA e de Israel, tudo mudou.

Muitas dessas comunidades cristãs começaram, conforme os casos, a ser perseguidas e pressionadas pelos militantes dos movimentos islâmicos extremistas e pelos igualmente radicais colonos judaicos, ante a passividade e conivência das diferentes autoridades políticas e religiosas que aí governam.

O resultado foi que, nestes últimos vinte e cinco anos, abandonaram a região entre três e três milhões e meio de cristãos. Hoje, os que ficaram representam apenas 3% a 5% da população.

Além dos cristãos, muitos outros adeptos de religiões minoritárias de diversas inspirações (yazidis, por exemplo) passaram aí a ser igualmente perseguidos e tiveram de emigrar.

É, assim, compreensível a apreensão do Papa.

Menos aceitável parece ser, no entanto, a menor preocupação demonstrada pelos governos ocidentais em relação à perseguição aos cristãos (e outras religiões) do Médio Oriente, resultante, sobretudo, das intervenções político-militares dos EUA e de Israel, a que, implícita ou explicitamente, deram e dão cobertura.

A ingerência dos EUA e das potências ocidentais nesta área do mundo saldou-se, pois, no reforço das políticas sectárias e racistas e no incremento da perseguição dos fiéis das minorias religiosas, algumas das quais aí sobreviviam em paz há cerca de dois milénios.

Abandonado o hipócrita discurso da defesa dos direitos humanos e da democracia, aparece agora, mais clara, a verdadeira razão de ser de tais intervenções militares: o controlo e exploração do petróleo por parte dos EUA e dos seus aliados.

Nesse aspeto, há, pois, que agradecer ao Presidente Trump a sinceridade crua que usa para justificar as causas das guerras que desenvolve, encomenda ou acalenta.

O que nos incomoda a todos não é que ele nos conte a verdade. O que choca é que, desvendada esta, ainda assim, os aliados ocidentais dos EUA e da sua tropa de assalto israelita continuem, sem qualquer pudor, a apoiar - declarada ou encapotadamente - a reinventada política da ‘canhoneira’, que o seu imperial ‘amigo’ leva a cabo, agora sem qualquer complexo ou disfarce, e, mesmo assim, encorajado e abençoado pelas mais belicosas seitas evangélicas.