No âmago da tragédia clássica está a ideia de purga, de catarse. Igualmente a ideia de Mimesis, que significa não só imitação, mas traz consigo a ideia de operação em que alguém se põe no lugar do outro. Identificação com alguém, e, no sentido superlativo, possessão e comunhão, a Mimesis tem uma irradiação semântica que vale a pena explorar: éleos, fobos - compaixão e temor.
Será Freud quem aprofundará a problemática levantada por Aristóteles na sua teoria da tragédia, considerando no opúsculo ‘Personagens psicopáticas do teatro’ que Éleos (compaixão) tem que ver com a recepção do espectador. Quem lê ou vê uma tragédia identifica-se com o pathos do protagonista. Assim, o tráfico implica a simpatia. Ou a solidariedade. Fobos significa o movimento contrário: distanciamento, separação em relação à dor, eis o fogo inultrapassável e sinistro que corresponde à fobia: a personagem trágica incorre numa falta que ignora (Édipo), ou enfrenta um poder maior (Antígona), ou está a braços com a força de um deus (Cassandra), dividida, sempre, a personagem trágica, entre a mortal humanidade de uma acção e a transcendente divindade de uma lição.
Ignorar a falha ou a falta é a condição da ‘anagnórise’/ reconhecimento. Para haver herói trágico tem de haver um desafio (hybris). O espectador sentirá o fobos, a reacção violenta, uma espécie de retracção a respeito da situação do herói se vir que a cegueira que o move à culpa lhe é inescapável.
Fernando Alexandre não é um herói trágico. A catarse nunca existirá e jamais será possível porque, nesta tragédia da educação em Portugal, Alexandre, tendo cometido o pecado da Hybris (insistir numa generalizada classificação por itens em formato digital e deixando para a IA a correcção de exercícios de escolha múltipla - com erros crassos em diversos exames) só merece a nossa fobia, não a nossa compaixão. E as razões ultrapassam as meras questões formais e o jogo de passa-culpas que este pobre ministro e o seu cómico secretário de Estado quiseram que fosse verdade. Ninguém, no entanto, pode assumir uma culpa que não lhe pertence. Nem professores, nem directores, nem estudantes, nem JNE, nem pais. Na ópera bufa que é já este Ministro e o seu Ministério, Alexandre não teve a elevação do herói trágico. Percebendo que o deus da Tecnologia impôs a sua lei (nunca os deuses permitem a felicidade absoluta dos homens), o Ministro competentíssimo está longe de Creonte, ainda que tenha traços de déspota. E não ouviu, como Príamo, a voz de Cassandra. A sua acção ofendeu o deus da tecnologia porque esse é um deus cruel: joga aos dados connosco. Brincará com o nosso destino. Fernando Alexandre, que nunca recuperará a aura que teve (nunca a teve para mim, pois Camões avisar-nos quanto aos hipócritas), não é o herói trágico porque nem sequer a sua acção pretendia a felicidade da sua comunidade. Impôs uma lei e não ouviu o Fado. Ora, estes Exames Nacionais se são trágicos, só o são porque os pais e os estudantes, desempenhando o papel de coro, acusam a falha de Alexandre e, sem piedade, condenam este Ministro a descer do pedestal em que outros e ele próprio se pôs.
Tese? Esta já não é uma tragédia, é uma comédia. A catarse será feita pela ironia, pelo sarcasmo. Fernando Alexandre será castigado pela carne. Há faltas que os deuses não perdoam.
No fundo, a tragédia da educação em Portugal tem que ver com a máxima Hybris: desafiar os deuses não se ignorando o erro cometido. E insistir nesse erro. Eis, Alexandres, a prova de incompetência de quem quis ir contra Cassandra: não ouviram jamais quem vos podia esclarecer. Preferiram impor este progressismo de província. É esta tragédia retirada de um péssimo guião. Não a escreveram Sófocles nem Eurípides. Escreveu-a no monte negro da ignorância um péssimo tragediógrafo. A intriga é previsível e triste e dá corpo e voz a personagens decadentes (Alexandre e Homem Cristo, o tenebroso Secretário secreto sempre na sombra do seu zelador). Mais: é a prova, esta tragédia, das negociatas entre o deus-tecnológico recolector de dados e a ideologia neoliberal que presta reverência a esse outro, o deus-dinheiro. O digital e a educação vista como terreno onde se pode fazer experiências com cobaias, eis o que está em processo. Quanto ao deus que esmaga estudantes e alunos com a mais nefanda das classificações, transformando tudo e todos em proletários na linha de montagem da grande amnésia cultural - tudo isto deveria merecer a preocupação dos pais. Portugal é hoje um país sem heróis. Heroísmo era ter recusado.
Mas nós, vaidosa e passivamente, há muito que deixámos de ouvir o Velho do Restelo, a figura trágica por excelência. Tal como Cassandra, quem o ouviu? E já agora: se o guião antigo funcionava, por que razão este Creonte insistiu em ofender os deuses? Ah, o dinheiro!!! O provincianismo! A ambição do ego!!!
Professor e crítico literário