sexta-feira, 06 fev. 2026

Em tempo de guerra(s): Eros e Thanatos

É a morte a energia do trumpismo. Não há outra força a guiar a sede expansionista dos dirigentes americanos

«Guerras e rumores de guerras», lê-se em inúmeras passagens bíblicas, sobretudo no Apocalipse. Ouviremos falar de guerras e de rumores de guerras, mas ainda não será o fim. A questão do escatológico na história humana coloca-se como possibilidade dupla: ou catástrofe ou salvação. Entre o expurgo do mal e a ideia (ou idealismo) de que o mal se expandiu a um ponto tal que é já impossível expulsá-lo, a humanidade tem vivido entre Cila e Caríbdis. Eros e Thanatos, pulsão de vida e pulsão de morte.

No nosso tempo mais uma vez, depois de um ciclo de décadas em que, de modo menos nítido, a guerra, ou as guerras, não surgia(m) no horizonte como possibilidade de aniquilamento do Homem, eis que Trump, ao esfacelar o Direito Internacional (processo em curso desde o seu primeiro mandato), põe em andamento acelerado, numa espécie de vertigem que lembra os processos de fim dos impérios (a orgia e a voragem do fim de Roma, a loucura dos impérios europeus depois da belle époque e a alegria inicial por se ir para a guerra em 1914-18) a energia de Thanatos. É a morte a energia do trumpismo. Não há outra força a guiar a sede expansionista dos dirigentes americanos. Eros, o amor, a vida como inquirição de um sentido que faça sentido (disse-o Camus em O Homem Revoltado), é essa a primeira morte que Trump anuncia urbi et orbi.

Onde fica a União Europeia e onde ficamos nós, portugueses, neste tempo de guerras? Perante a cobardia de muitos políticos europeus, perante a indigência e a irresponsabilidade dos que deveriam saber que a Europa encarna (ou deveria encarnar) a possibilidade do sentido, que fazer? Em face dos avanços da IA e da ideologia maquinal que irá reduzir o Homem a um mero serventuário dos grandes empórios globais, todos eles sequiosos de lucros imediatos com ajuda da IA, essa arma de destruição maciça do trabalho, dos empregos – que pode a Europa? São perguntas que, a meu ver, não podemos separar de uma mais larga inquietação e que é de natureza filosófica, porque existencial: onde estaremos em 2036, daqui a dez anos? Que mercado de trabalho? Com que direitos a protegerem-nos da selvajaria do dinheiro? Com que consciência estaremos nas relações entre Estados e entre pessoas? Que humanidade sairá dos escombros de um eventual confronto – ainda que de breve duração – nuclear entre os EUA e a China-Rússia?

Era imprescindível que a Europa, continente que arrastou o mundo para duas guerras mundiais, compreendesse a razão do projecto de De Gaulle: a Europa devia ser até aos Urais. Dito de outro modo, a ideia-Europa, pós-45, devia ter inscrito a Rússia nesse grande plano de paz que defenderia o Velho Continente da energia de Thanatos, natural no código genético do Ocidente. A História não engana: sobre as ruínas de uma diplomacia internacional que parece desconhecer o passado, o Ocidente Global vê hoje chegar ao fim o Direito – a força da razão substituída pela razão da força – como regulação dos poderes. Vamos ouvindo, de há uns anos a esta parte, desde, pelo menos, a invasão da Ucrânia em 2022, um discurso que tende a moldar a nossa forma de viver. Os mais altos responsáveis políticos, com especial ênfase para Mark Rutte e Ursula, não dizem outra coisa: é preciso prepararmo-nos para a guerra. Durão Barroso, o que serviu no prato da hospitalidade doméstica, os interesses de Bush e de Blair na malfadada Cimeira das Lajes, também já o disse: haverá guerra. Mas a energia de Thanatos passa pela China e o conflito com os EUA por causa de Taiwan. Esta ilha tem o monopólio dos semicondutores e serve os interesses americanos. A China olha para o seu mar e para Taiwan como território que lhe pertence e depois da Venezuela, por que razão Pequim não pode invadir (ou «adquirir», como diz Trump em relação à Gronelândia) a sua área de influência? E Putin, o que o impede de lançar agora todo o seu poderio contra a Europa de Leste, refazendo a URSS, cujo fim ele disse um erro histórico monumental? Quem vencerá a luta: Eros ou Thanatos?

A questão dos semicondutores é fundamental: há uma única empresa responsável pela indústria, a maquinaria que produz os semicondutores, a ASML. Esta empresa holandesa tem uma política de importação de materiais cujo monopólio é americano: comprar aos Estados Unidos é o pacto indestrutível. Como seria se a Holanda permitisse que a China pudesse, também ela, produzir semicondutores? A ideia de Trump parece ser simples: este ex-negociador imobiliário, discípulo de Roy Cohn, não hesitará em impedir que a China se reforce tecnologicamente. A guerra, a que vier, é uma guerra pelo domínio tecnológico e, mais uma vez, pelas matérias naturais, do lítio às terras raras. Mas a guerra que virá é ainda outra coisa: um combate pela própria alma humana, isto é, uma luta interior – de cada um consigo – entre as duas energias que conduzem a História: amor ou ódio. Não há, nestas minhas palavras, idealismo algum. O único deus vivo é um deus-dinheiro. O lema americano é «In Dollar we trust». 

Ora, Trump e Rubio, entre outros agentes que se movem na sombra (o genro de Donald, Kuhsner), não mentem: é Thanatos que seguem, isto é, a energia da guerra e da morte, a crença de que a imortalidade pode comprar-se. A política não pode pensar-se fora da questão metafísica, longe do sentido de estarmos aqui, em terra de viventes. Resta saber se o fim da História não estava já escrito nesse livro do Apocalipse, que é Revelação. A Europa, na verdade, ou será o lugar dessa revelação do ser a si mesmo, mostrando que resistir é apostar na diplomacia do humano, na cultura da fraternidade, combatendo pela Ilustração e contra o fanatismo e a tirania, ou soçobrará em nome do dólar, refém do dólar. Refém de Thanatos.