terça-feira, 10 fev. 2026

A necessidade das elites intelectuais: Edgar Morin & Maria Alzira Seixo

Perante a pornográfica forma de Trump e de outros fazerem política (Ventura está nesse naipe), lembro Maria Alzira Seixo: ‘é toda uma pedagogia da vida que é preciso repensar’.

Lições de um Século de Vida, do filósofo, professor, sociólogo e antropólogo, e também escritor Edgar Morin – talvez a mais alta figura intelectual (vivo) do nosso tempo atual – e Maria Alzira Seixo (1941-2026), sem dúvida uma das personalidades mais marcantes da Universidade portuguesa e da nossa vida cultural, eis do que quero falar hoje. 

Não se trata exatamente de recensear o livro de Morin, cuja obra tem como marco geodésico fundamental esse clássico dos estudos sociais, O Homem e a Morte (1951), nem de vincar um dos quaisquer ensaios de Maria Alzira Seixo reunidos em volume (será sempre obrigatório recordar, de 1977, Os Discursos do Texto (a reedição devia ser feita já), mas de, a reboque das suas vida(s) e obra(s), pensar sobre este país – Portugal – e esta Europa, hoje órfãos, cada vez mais, de referências culturais, políticas, intelectuais. 

Desde 2016, aquando a primeira eleição de Trump, a ideia de normalizar, na esperança de integrar e de, com isso, aplacar a fúria e o fascínio da extrema-direita pela sede do lucro, veio a traduzir-se na degradação acelerada da vida pública. As democracias ocidentais cujo farol foi, até ao 11 de Setembro de 2001, indiscutivelmente os Estados Unidos da América, falharam no seu projeto de manter viva a herança do Iluminismo e a promessa de 1789. A questão da degradação das democracias é indissociável da ascensão ao poder de uma forma de pensar e de agir de que estão ausentes qualquer respeito pelo Outro e qualquer respeito pelo Planeta. As alterações climáticas já definem a nossa forma de existir. Por incúria e por excesso de tratados e diminuta vontade política, nada fizemos e nada fazemos para evitar uma destruição de proporções apocalípticas, a qual, seja em que zona do nosso planeta vier a acontecer, será a prova cruel da indigência do Ocidente. 

Em face da bestialidade do regime trumpista, o maior inimigo da Europa e do mundo; novo regime americano pejado de oligarcas e que, com outras oligarquias do globo, tem como único fito possuir e explorar os povos e os recursos da Terra, que lugar, no discurso e na ação políticas, têm as elites intelectuais? Não é de somenos esta pergunta, até porque, como estratégia de dominação, Trump e Putin, mas também o líder da Coreia do Norte ou a China de Xi, bem como outros regimes autocráticos – de Orbán a Maduro (agora regime nas mãos de Trump, assim parece) – desprezam e perseguem mulheres e homens da cultura e das artes, do jornalismo livre e independente. Do suicídio à execução sumária, das quedas de janelas por mero acidente ao envenenamento, é também contra as elites intelectuais que o fascismo global se está a fazer. Edgar Morin no livrinho que aqui referi, considera o óbvio na primeira frase de abertura do livro: «Quem sou eu? Eu respondo: eu sou um ser humano. Esse é o meu substantivo». É um início óbvio, mas necessário. Nunca como agora – depois do nazismo e do fascismo do século XX, depois das inúmeras ditaduras de esquerda e de direita – um livro como o de Morin vem dizer-nos da verdade suprema: quem somos? Somos seres humanos. Assim, sem-mais. Humanos. Poderemos ter muitos adjetivos, mas é o substantivo «humano» que nos define. 

Ora, é precisamente a noção de humano que está em causa nesta época de brutalismo político. Sem referências culturais vindas da literatura, do cinema, da filosofia, das artes – isto é: dos livros – a classe política divorciou-se do pensamento. A ação política sem pensamento e sem cultura, di-lo o professor francês, conduz a um modo de viver que só rima com a morte. Morin apela à imaginação, a qual, casada com a consciência do humano, é a única via para não transformar a existência num incessante e infernal corredor de sofrimento. É a lição de um homem que tem 104 anos. 

Em 1976, no Diário Popular de 14 de Fevereiro, respondendo a um inquérito sobre pornografia, Maria Alzira Seixo constatava, perante a taxação, em França, das publicações (jornais, revistas, filmes) de teor pornográfico, o seguinte: que não era exercendo a repressão que se chegaria a qualquer resolução. Importava «refletir sobre as possibilidades gerais da educação, a vários níveis, e sobre a sua aplicação» conforme a situação política e sua evolução. Na última resposta ao inquérito colocava a tónica no que, hoje, continua a merecer atenção: «É toda uma pedagogia da vida que é preciso repensar». Repensar a vida, isso é também a mensagem de Edgar Morin. Quando, como hoje, nos debates e nos comícios não há uma referência cultural solidamente lembrada – uma imagem, uma metáfora que agite o pensamento, uma relação de causa-efeito que desmonte as malhas de um pseudo-argumento, um poema que diga de forma irradiante o que os corações procuram, cegamente, ouvir –; quando um candidato a Presidente da República tem o despautério de declarar que não é com poemas que se resolvem problemas, eis que chegamos a um ponto baixíssimo do humano. 

Esquecem-se os inimigos das elites intelectuais que os poetas, os pintores, os filósofos, os historiadores, atores e cineastas, os dançarinos, os ensaístas, enfim, os que têm o poder da palavra são essenciais à vida coletiva: inspiram, animam, esclarecem. Os inimigos do pensamento esquecem um facto histórico indesmentível: foi sempre o pensamento que deu a chave para a emancipação das sociedades. 1789 não é uma data mais no calendário da vida. Perante a pornográfica forma de Trump e de outros fazerem política (Ventura está nesse naipe), lembro Maria Alzira Seixo: «é toda uma pedagogia da vida que é preciso repensar». Lembro Morin: «Quem sou eu? Eu respondo: sou um ser humano». 

Professor e crítico literário