segunda-feira, 17 ago. 2026

Quem cuidará de nós? Não basta investir. É preciso decidir bem

Os recursos são uma condição necessária, mas nunca suficiente. É a qualidade das decisões que os transforma em valor para os cidadãos.

Há uma pergunta que deveria anteceder qualquer debate sobre o futuro da saúde: quem cuidará de nós?

A resposta parece evidente: passa por formar mais profissionais, contratar mais pessoas e investir mais recursos. Tudo isso é indispensável. Mas será suficiente? Antes de discutir quanto investir, importa perceber como transformar recursos em melhores cuidados para os cidadãos.

Ao longo de mais de duas décadas na gestão da saúde encontrei organizações com recursos semelhantes e resultados profundamente diferentes. Essa experiência fez-me questionar uma das ideias mais persistentes do debate público: a de que mais recursos significam, por si só, melhores resultados.

Os recursos são uma condição necessária, mas nunca suficiente. Na saúde, o maior capital do sistema são as pessoas. São elas que cuidam, inovam, lideram e decidem. Confundir meios com resultados continua a ser um dos equívocos mais frequentes das políticas públicas. O desempenho de qualquer sistema depende também da qualidade das decisões e da capacidade de criar organizações onde os profissionais possam colocar a sua competência ao serviço dos cidadãos.

Ao mesmo tempo, multiplicaram-se as estruturas, as normas e os mecanismos de controlo. Reformularam-se instituições, alteraram-se modelos de gestão e produziram-se novas regras. Nem sempre se conseguiu, porém, reforçar, na mesma medida, a capacidade de decidir bem, de assumir responsabilidades e de criar contextos onde os profissionais possam desenvolver plenamente o seu potencial.

Os profissionais estão no centro do sistema de saúde, tanto na prestação de cuidados como nas decisões que diariamente moldam a resposta às necessidades dos cidadãos. Desenvolvem o seu trabalho no contexto das organizações e dos incentivos que estas criam. Por isso, limitar o debate ao número de profissionais é insuficiente. Importa refletir sobre as condições que lhes permitam colocar o seu conhecimento ao serviço dos cidadãos, assumir responsabilidades e encontrar no serviço público um lugar onde valha a pena construir uma carreira.

Hoje, o contexto tornou-se mais exigente. O serviço público compete por talento num mercado muito mais aberto. Valorizar quem trabalha continua a ser essencial, mas essa valorização deve caminhar a par da responsabilidade, do compromisso e da exigência que caracterizam qualquer serviço público de qualidade. Direitos e deveres não se opõem; reforçam-se mutuamente. É dessa relação que depende a confiança nas instituições.

Continua-se, porém, a decidir demasiadas vezes com o horizonte do próximo orçamento ou do próximo ciclo político. Na saúde, os recursos aplicados nas pessoas, nas competências, na tecnologia, na prevenção e na inovação não devem ser entendidos apenas como despesa. São um investimento na capacidade de responder melhor às necessidades presentes e futuras. Os benefícios das decisões estruturais raramente são imediatos. Talvez por isso essas decisões sejam tantas vezes adiadas.

Num sistema onde a informação é, inevitavelmente, assimétrica, os cidadãos esperam, legitimamente, que as decisões públicas garantam o acesso aos cuidados de saúde de que realmente necessitam e quando deles necessitam. Essa realidade exige uma governação responsável, transparente e capaz de prestar contas. Governar bem é criar as condições para que a competência dos profissionais se traduza em melhores cuidados para os cidadãos. É esse, afinal, o verdadeiro teste à qualidade das instituições.

Precisaremos de mais recursos. Precisaremos de mais profissionais. Precisaremos de mais inovação. Tudo isso será indispensável. Mas será a qualidade das decisões que determinará o valor que esses recursos conseguem criar e, em última análise, a resposta à pergunta que verdadeiramente importa: quem cuidará de nós?

Economista Sénior
Administradora Hospitalar
Docente de Auditoria em Saúde