Um Compromisso Comum para o Futuro da Saúde
Falar do futuro da saúde é falar do futuro do país. É falar da capacidade que teremos, enquanto sociedade, de responder a desafios que já não são conjunturais, mas estruturais: o envelhecimento da população, a escassez de profissionais, a pressão crescente da inovação tecnológica e a complexidade das necessidades em saúde.
Estes desafios não se resolvem num ciclo político, nem num conjunto isolado de medidas. Exigem continuidade, coerência e capacidade de decisão ao longo do tempo. Exigem, sobretudo, um compromisso que ultrapasse governos e agendas partidárias.
Portugal tem um sistema de saúde que constitui uma das suas maiores conquistas coletivas. Mas enfrenta hoje um ponto de viragem. Mais do que discutir soluções avulsas, importa definir um entendimento básico sobre o que deve ser garantido e protegido nas próximas décadas.
É neste contexto que a ideia de um compromisso comum para a saúde ganha sentido. Não se trata de eliminar diferenças políticas ou técnicas. Trata-se de identificar um conjunto de pilares estruturantes que possam orientar decisões futuras, independentemente de quem governa.
O primeiro pilar é assumir a saúde como uma verdadeira política de Estado. Mais do que uma declaração de intenções, isso implica estabilidade estratégica, visão de médio e longo prazo e mecanismos robustos de planeamento, avaliação e continuidade das decisões. Sem esta base, qualquer reforma permanece fragmentada e vulnerável aos ciclos políticos.
O segundo pilar são os profissionais. O sistema depende deles e compete hoje num contexto europeu altamente exigente. Atrair, reter e motivar profissionais não se resolve apenas com remuneração.
Exige condições de trabalho, liderança qualificada, autonomia responsável e modelos de organização mais flexíveis e humanos.
O terceiro pilar é a articulação entre setores. Continuamos, demasiadas vezes, presos a debates ideológicos entre público e privado. Mas o desafio real é outro: como utilizar, de forma coordenada e transparente, todas as capacidades existentes – setor público, privado, social, académico e industrial – ao serviço do cidadão. O sistema ganha quando coopera, não quando se fragmenta.
O quarto pilar é a inovação. A transformação digital, a inteligência artificial e a medicina personalizada vão mudar profundamente a forma como prevenimos, diagnosticamos e tratamos a doença. Mas inovação sem governação é risco. É necessário garantir avaliação rigorosa, sustentabilidade financeira, interoperabilidade e enquadramento ético. A questão central não é o que a tecnologia permite fazer, mas o que o sistema consegue incorporar com equidade e responsabilidade.
O quinto pilar é o envelhecimento da população. Não é apenas um desafio do sistema de saúde; é uma transformação da sociedade. Obriga a repensar modelos de cuidados, a reforçar a integração entre saúde e apoio social, a apostar na prevenção e a aproximar respostas das comunidades. Um sistema demasiado centrado no hospital não será suficiente para responder às necessidades futuras.
O sexto pilar é a governação, a prestação de contas e a cultura de responsabilidade. Definir objetivos é indispensável, mas não suficiente. É necessário medir resultados, avaliar o desempenho das políticas, garantir transparência na utilização dos recursos e assumir responsabilidade pelas decisões tomadas. A confiança dos cidadãos constrói-se não apenas através do investimento, mas também pela capacidade de demonstrar resultados, corrigir desvios e promover uma cultura de exigência, responsabilidade e melhoria contínua em todos os níveis do sistema.
Ao longo de mais de duas décadas no setor da saúde, tenho assistido a múltiplas reformas e intenções de mudança. Muitas delas tecnicamente bem fundamentadas. Mas também tenho visto como decisões estruturais acabam, frequentemente, condicionadas por ciclos políticos curtos, por fronteiras ideológicas rígidas ou por leituras excessivamente simplificadas da realidade entre setor público e privado.
A experiência mostra que o problema não é apenas de desenho das soluções. É também de capacidade de decisão, de continuidade e de responsabilidade na execução.
Se é verdade que a saúde precisa de um compromisso comum para o futuro, o mesmo pode ser dito da educação – ainda que esse seja um debate para outra reflexão.
O verdadeiro desafio não é apenas construir um compromisso para a saúde, mas recuperar a capacidade de fazer políticas públicas de longo prazo, baseadas na evidência, na responsabilidade e na coragem de decidir, mesmo quando isso implica ultrapassar fronteiras ideológicas ou resistências instaladas.
O futuro não se herda. Constrói-se.
Economista Sénior, Administradora Hospitalar, Docente de Auditoria em Saúde