quarta-feira, 22 jul. 2026

Uma greve geral que sabe a férias

Se a esmagadora maioria das alterações propostas ao Código do Trabalho não se aplicam aos funcionários do Estado, porque são eles os mais vocais e os mais entusiastas desta greve geral?

Terça-feira, dia 2 de junho. Começo a escrever este texto antes da paralisação anunciada pela CGTP para a véspera de um feriado, que por acaso até se presta a uma ponte, com direito a fim de semana prolongado. Coincidências. Tenho a televisão ligada sem som, mas sou incentivado a subir o volume quando vejo em direto umas dezenas de funcionários públicos à porta de uma câmara municipal, em protesto. Fico confuso. Mas, então, a greve não começa só à meia noite de dia 3? O que estão ali a fazer? Começaram mais cedo? Não deviam estar a trabalhar?

Ouço Daniel Martins, do Sindicato de Todos os Profissionais da Educação (STOP), explicar as razões do protesto: «A reforma laboral», argumenta, «vai diminuir a capacidade da escola pública em responder de forma decente aos seus alunos». Hum. Como assim? Importa-se de explicar melhor? Não explica. A entrevista segue por ali fora, sobre a indisciplina nas escolas, a falta de pessoal, as fracas condições das instalações escolares, os baixos salários, que nada têm que ver com as alterações ao Código do Trabalho. Daniel Martins põe tudo no mesmo saco, sacode bem et voilà: eis o motivo pelo qual o Sindicato de Todos os Profissionais da Educação decidiu aderir à greve geral: por tudo e por nada.

Antes, já a nossa bem conhecida e sempre mui indignada Joana Bordalo e Sá, dirigente da FNAM, se apresentava em frente ao Hospital de São João para satisfazer os pedidos de diretos das televisões. Deve ser dia de festa, já que, desta vez, decidiu sair do seu gabinete, onde costuma passar dias infinitos a dar entrevistas por videochamada.

Joana Bordalo e Sá faz um apelo aos médicos «para que não se deixem intimidar pelas chefias» e adiram à greve geral. Os médicos? Mas porquê? Em que é que as alterações ao Código do Trabalho impactam a vida dos médicos? Calma. A dirigente da FNAM explica que é preciso lutar contra o banco de horas, que vai forçar os médicos a trabalhar mais duas horas por semana, sem que essas horas sejam pagas como trabalho suplementar. Fico novamente confuso. A que médicos está Joana Bordalo e Sá a referir-se? Aqueles que preferem desvincular-se do Estado para serem tarefeiros e poderem colecionar horas pagas a peso de ouro? Ou será que está a falar dos que andam a faturar cirurgias milionárias ao fim de semana? A que médicos se aplicará esse horrível banco de horas?

Entre os setores previsivelmente mais afetados pela greve estão também os transportes. A greve é só de um dia, mas as supressões começam de véspera e prometem prolongar-se para o dia depois da greve. Em alguns casos, o tribunal arbitral decidiu que nem sequer devem ser decretados serviços mínimos, para gáudio dos sindicatos. Diz o tribunal que, no caso do Metro, sendo a greve durante um curto espaço de tempo, «existem meios alternativos de transporte ao dispor dos cidadãos». Que é como quem diz: andem a pé, que também faz bem. Volto a ficar confuso. Se a esmagadora maioria das alterações propostas ao Código do Trabalho não se aplicam aos funcionários do Estado, porque são eles os mais vocais e os mais entusiastas desta greve geral? Só pode ser por solidariedade com os trabalhadores do setor privado. E porque, parecendo que não, numa semana com um feriado que permite uma ponte, com um dia de greve que começa 24 horas antes e acaba 24 horas depois, sempre são seis dias sem trabalhar. Assim fica difícil levar a sério os sindicatos.

No fundo, a lógica destas greves gerais parece ser a seguinte: se o novo Código Laboral não se aplica a ti, escolhe um motivo qualquer e faz greve na mesma. Achas que ganhas mal? Faz greve. Achas que há muita indisciplina na escola? Faz greve. Não gostas do teu chefe? Faz greve. Estás insatisfeito com a tua empresa? Faz greve.

E uma greve geral não chega. É preciso irritar as pessoas, levá-las ao desespero, para ver se correm com o Governo rapidamente. E um dia, em véspera de feriado, não é suficiente. Por isso, alguns sindicatos – como os que representam os trabalhadores da AIMA, por exemplo – decidiram sobrepor à greve geral outras greves, mais setoriais, só para garantir que a perturbação – e os dias sem trabalhar – se prolongam durante toda a semana. Que é para ver se o Governo aprende.

No final, é só política de terra queimada. Nem o Código Laboral do Governo vai resolver o problema de produtividade do país, nem a greve geral servirá para melhorar a vida dos trabalhadores. Já todos vimos este filme. Várias vezes. E já todos sabemos como acaba. O imobilismo dos sindicatos há de condená-los a uma cada vez menor representatividade da classe trabalhadora, reduzindo-os a defensores dos trabalhadores do Estado, o último reduto a que se podem agarrar. Já a falta de capacidade reformista do sistema político há de levar a uma fuga, cada vez maior, de eleitores para o populismo.